O TEXTO A SEGUIR CONTÉM GRAVES SPOILERS!!!

É padrão! Boa parte dos artistas autorais que alcançam projeção mundial e renome durante décadas de carreira acabam chegando em um filme como Dor e Glória, uma espécie de ensaio sobre si, de olhar retrospectivo não só para suas obras como também para como elas se encaixam no mosaico de sua vida. E não é à toa que esses momentos de autorreflexão surjam durante um bloqueio, seja ele criativo, emocional ou até físico.

Daí é que surge a metanarrativa que Pedro Almodóvar constrói com seu longa de 2019. Respeitando a total falta de sutileza já marcada do diretor, o Salvador Mallo de Antonio Banderas é claramente seu próprio reflexo transposto em tela, quase como um autorretrato expressionista, do cabelo grisalho e desgrenhado ao senso de estilo extravagante, passando por sua sexualidade e pelos temas de suas obras, em especial, sua própria mãe. Acometido por inúmeros problemas de saúde física e mental, acaba constantemente solitário em seu apartamento rebuscado, lendo livros que parecem refletir sua realidade e sem filmar nada por anos, algo que ele mesmo reconhece que lhe faz muita falta.

Interessante perceber como Almodóvar entrega aqui uma obra bem mais econômica, simples e direta em sua forma se comparada ao resto de sua carreira. Claro que suas cores saturadas, suas emoções à flor da pele e até algumas brincadeirinhas gráficas estão presentes, mas são tão pontuais que o destaque torna-se os momentos de intimidade confessional entre Mallo e seu ex-colaborador Alberto (Asier Etxeandia) ou sua assistente Mercedes (Nora Navas). Se em qualquer outro filme, eu reclamaria do excesso de diálogos em plano e contraplano, aqui eu já acho que eles são usados não só de forma até dosada como também com uma inteligência emocional admirável do diretor.

Estamos falando de um filme sobre um homem quebrado, em um momento de inércia emocional e profissional. Na falta de perspectiva e em meio a sua solidão, o que lhe resta é olhar para o passado com nostalgia, um sentimento que talvez sempre venha com amargor. Uma idealização que gera arrependimento sobre sua trajetória e estagnação sobre seu presente. A sacada de Almodóvar aqui é retratar um “agora” autocentrado, imóvel, trancafiado em apartamentos que, por mais belos e cosmopolitas que sejam, apresentam apenas uma ilusão de mundo, uma representação segura, como um filme em tela. Nenhuma  aparência vai resolver os problemas de Mallo.

Dor e Glória (2)

Nesse “agora”, seu refúgio é a heroína, que sempre renegou por pertencer ao passado sombrio de um ex-namorado (Leonardo Sbaraglia). A droga, de certa forma, o conecta com seu passado na vila pitoresca de Paterna, onde morava em uma “caverna” e, ainda criança e já precoce, tutorava o pintor analfabeto Eduardo (César Vicente), seu “gay awakening”, uma relação que nunca entendeu ao certo. A abordagem melodramática e improvável de Almodóvar gera um catalisador de compreensão no final do longa, como um deus ex machina assumido que ajuda Mallo a seguir em frente, assim como sua lembrança da última interação com sua mãe (Penélope Cruz/Julieta Serrano), dolorosa mas que, em retrospecto, é ressignificada com saudades.

Se a forma de Salvador lembrar de sua mãe antes era percorrendo o mesmo espaço no corredor de seu apartamento no qual ela fazia sua caminhada diária, como relata sua empregada doméstica a Mercedes, a retomada da amizade com seu ex-namorado Federico (em uma belíssima conversa, que o diretor filma com um misto de intimidade e desejo reprimidos pelo tempo), a compreensão de seus sentimentos por Eduardo e o quadro que este pinta sobre sua imagem da infância o ajuda a ressuscitar artisticamente. É quando Almodóvar puxa as cortinas e revela que seus flashbacks eram um filme dentro do filme, algo próximo ao que Joachim Trier fez recentemente com seu ótimo Valor Sentimental (2025).

Dor e Glória (1)

Com isso, a crise de Salvador é sanada por uma série de encontros com o passado, que não ficam presos a memórias nostálgicas, mas sim a interações reais do presente. Quando Salvador sai de seu enclausuramento, ele se permite a esses encontros, mesmo que de forma aleatória ou, talvez, destinada. Em Dor e Glória, Almodóvar usa de seus absurdos melodramáticos – até novelescos – para transformar a crise existencial de seu protagonista espelhado em uma obra de arte, como se essa fosse sua forma de lidar com o emocional, algo que resgata filmes como (Fellini, 1963), Cinema Paradiso (Tornatore, 1988) e a já citada obra de Trier. Uma forma de entender o presente suspenso no tempo aprendendo a usar o passado como investigação e não como uma prisão melancólica de pura nostalgia.