Quem me acompanha aqui na Revista ou no meu perfil particular sabe que não tenho um grande apreço pela nova onda de cinebiografias de artistas musicais, nacionais ou internacionais, que vêm saindo nos últimos anos. Afinal, constantemente recorrem ao ideal liberal estadunidense do sucesso como passe de mágica ou por “meritocracia” e ao culto à personalidade, transformando seus biografados em seres etéreos cuja genialidade só é explicada por meio da suspensão de descrença da ficção, extirpando sua natureza humana nesse processo. E só para constar: o problema não é a abordagem, que é totalmente válida. A questão é como tal abordagem virou uma muleta para estúdios faturarem em cima de nomes lendários. Com isso, eles se recusam a pensar na narrativa pela imagem e geram obras, de medíocres para baixo, que jamais refletem a arte dos retratados.

E acho que basta ouvir uma ou outra música da banda carioca Planet Hemp para bater o martelo de que esse ponto de vista americanizado de ascensão-e-queda seria desastroso se aplicado a sua história. É aí que entra o tão pouco falado Legalize Já: Amizade Nunca Morre que, apesar de seu subtítulo bem publicitário e cafona, parece buscar ao máximo o respeito aos artistas retratados e a sua natureza urbana underground, tanto a partir do som do grupo quanto a partir da realidade de seus fundadores, o camelô Marcelo (Renato Góes) e o endividado Luís Antônio (Ícaro Silva). Meu ponto, ao trazer mais luz a essa obra, é justamente entendê-la como uma “anti-cinebiografia”, considerando o estado do subgênero nos últimos vinte anos.

Primeiramente, o filme começa como uma crônica urbana a partir de diferentes pontos de vista e sem uma visão retroativa, problema bem comum a esse tipo de longa. Não somos apresentados ao Marcelo D2 e ao Skunk antes da fama, mas sim – como citei antes – a Marcelo e Luís Antônio, jovens em suas vidas simples e prejudicadas. Um deles vendendo ilegalmente camisetas de rock em praça pública, o outro terminando de montar uma mixtape e se escondendo do proprietário de seu apartamento com aluguel atrasado. Este que, por sinal, é auxiliado pelo dono de um botequim (Ernesto Alterio) durante seu tratamento contra o HIV, enquanto o primeiro precisa pagar um aborto – também ilegal, claro – para a namorada (Marina Provenzzano) e enfrentar a frieza do próprio pai (Stepan Nercessian). Não há glamour na vida pregressa de nenhum desses personagens, não há ciência de seus próprios talentos que ainda serão descobertos. São pessoas à margem da sociedade vivendo problemas reais.

E para além de uma análise puramente conteudista do enredo, tudo é preenchido por um tratamento de cor tão dessaturado que flerta com o preto-e-branco altamente contrastado, em uma edição cheia de cortes rápidos e uma câmera constantemente fora do eixo, puxando de volta a linguagem “videoclipada” da Retomada, momento do cinema brasileiro do fim dos anos 1990 ao início dos anos 2000. Se em outro contexto, essa estética poderia ser um problema, um retrocesso a um ideal publicitário de cinema terceiro-mundista, aqui funciona justamente por ser um equivalente cinematográfico ao som nervoso, revoltado, urbano e distorcido da Planet Hemp, a música que reflete a insatisfação com uma certa realidade periférica.

Se os Arcos da Lapa, grande cartão-postal do Rio de Janeiro, parecem abrir o filme de forma majestosa, sua estética logo é ofuscada pelo branco em alto contraste da imagem do resto do centro metropolitano. A partir daí, a parte mais relevante do monumento não é mais seus arcos, mas sim o simples trilho do bonde que passa por cima, cercado por grades retorcidas e a selva de pedra de edifícios altos. Ou até mesmo as incontáveis paredes de chapisco pichadas em ruelas mais internas e, portanto, mais isoladas. O Rio aqui é uma bela cidade, porém depredada; sua paisagem parece não atingir seu potencial. E não por uma espetacularização da pobreza, mas sim para transmitir uma mensagem, para localizar seus protagonistas.

O roteirista Felipe Braga e a dupla de diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé conseguem resumir todo seu filme a partir de uma fala relativamente cômica, mas profundamente crítica de Skunk em certo ponto:

“A gente precisa de uma meia dúzia [de músicas] pra fazer uma demo, que aí a gente toca na rádio e promove um show. Foda que, pra fazer uma demo, a gente precisa de grana e, pra fazer grana, a gente precisa levantar um show, que a gente só consegue se a gente fizer… uma demo.”

É um trecho irônico que reflete o paradoxo da busca pelo sucesso artístico na linguagem do capital, especialmente para quem não o possui. Não à toa, são poucos os trechos em que vemos músicas da banda sendo reproduzidas e, quando são, duram alguns poucos segundos. Na ascensão ao sucesso da banda, temos a morte de Skunk e os créditos finais. O interesse aqui não é a celebração, é a crueza da vida real.

Com isso, Legalize Já: Amizade Nunca Morre é um passo diferenciado na história recente das cinebiografias de músicos populares. É um filme de desenvolvimento de personagens e de retratação de uma realidade inoportuna de artistas que, quando alcançam o sucesso, parecem sentir ainda mais a euforia da vitória, mesmo com perdas irreparáveis. Planet Hemp não é sobre maconha, é sobre comprometimento com as classes mais baixas. E fico feliz que ao menos o filme sobre eles conseguiu respeitar essa identidade.