Antologias do Horror: Coletâneas Macabras para Esse Halloween

Antologias são obras compostas por vários segmentos ou episódios independentes, habitualmente conectados por um tema central, um conceito narrativo ou uma estrutura estética comum. Ao invés de uma narrativa contínua, toda a obra é dividida em partes que podem ser dirigidas por diferentes cineastas ou apresentar diferentes personagens e situações dentro de um mesmo universo temático. Uma espécie de coletânea de curtas

O formato antológico possui raízes no cinema das décadas de 1930 e 1940, ganhando força durante o período do pós-guerra, especialmente na Europa, como forma de reunir diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto. As antologias de terror ocupam um lugar especial na história do cinema, sendo um formato que aproveita muito bem um dos gêneros mais versáteis e criativos da sétima arte. Elas combinam múltiplas histórias curtas que exploram diversos tipos de medo, do sobrenatural ao psicológico.

O formato permite o uso de vários tons e estilos, indo do horror gótico ao slasher, do humor mórbido à crítica social, favorecendo a experimentação, pois cada história curta precisa causar impacto rapidamente. A seguir, sete longas para conhecer as antologias do horror na sétima arte.

01

Na Solidão da Noite

Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden & Robert Hamer
1945

Um grupo de desconhecidos se reúne em uma casa de campo, a pedido de um misterioso anfitrião. Quando ele finalmente se revela, conta que, apesar de não conhecer ninguém ali, sonhou com todos, e também que um deles morreria naquela noite, embora não se lembre quem. Na tentativa de evitar o inevitável, decidiu reunir todos sob o mesmo teto. Para passar o tempo, os convidados começam a compartilhar experiências sobrenaturais que viveram. O filme intercala esses relatos com a história principal, que amarra os episódios e mantém o fio do suspense. A tensão é constante e vai se fechando como uma armadilha; até o desfecho, quando o espectador, enfim, afunda junto dos personagens em um desespero inevitável.

02

As Três Máscaras do Terror

Mario Bava
1963

O filme que nomeou a banda liderada por Ozzy Osbourne (seu título em inglês é Black Sabbath), essa obra antológica dirigida pelo mestre do terror italiano Mario Bava reúne três histórias independentes, cada uma explorando um tipo diferente de medo — psicológico, folclórico e sobrenatural —, todas unidas pela atmosfera estilizada e pelo domínio visual característicos do diretor. Os três segmentos são narrados pelo ator inglês Boris Karloff (famoso por interpretar o Monstro de Frankenstein no longa de 1931), que também estrela em um dos contos. O tom muda de um episódio para outro, indo do suspense realista ao horror gótico.

03

Kwaidan

Masaki Kobayashi
1964

Baseado em uma coleção de histórias japonesas folclóricas e fantasmagóricas, Kwaidan se utiliza do deleite visual para imergir o espectador em um Japão imaginário. Cada uma das quatro histórias trazidas pelo filme se passa em um cenário distinto e trata do sobrenatural sob uma perspectiva diferente do que se vê no Ocidente. Os fantasmas nem sempre são malignos; são figuras misteriosas que ressaltam as falhas humanas. O terror no filme não é trabalhado através de sustos ou gore, e sim pela estranheza, pela grandiosidade dessas figuras sobrenaturais. A dramaticidade teatral, assim como os cenários majestosos, transforma tudo em algo épico. Um terror que seduz pela beleza.

04

O Estranho Mundo de Zé do Caixão

José Mojica Marins
1968

Zé do Caixão apresenta aos espectadores três histórias de terror ligadas por um mesmo fio condutor: a dominação social. Cada conto carrega uma camada de comentário político sobre dinâmicas de poder e exploração que permeiam a sociedade: marido e esposa, rico e pobre, por aí vai. O final do filme, alterado pelos censores da ditadura militar, obrigou Mojica a punir os vilões. Ironicamente, essa interferência reforça o discurso político do próprio filme: os agressores são punidos por uma entidade ainda mais dominante — Deus —, metalinguisticamente espelhando o modo como a ditadura tenta exercer seu controle sobre o próprio ato de criação. A censura, assim, torna-se parte da obra, revelando, na prática, a lógica de dominação que o filme denuncia.

05

Creepshow

George A. Romero
1982

No Dia das Bruxas, um homem briga com seu filho, Billy, por causa de uma HQ de terror chamada Creepshow. Irritado, o pai joga a revista no lixo, e o filme mergulha nas histórias que as páginas contêm. O visual é um dos pontos altos; Romero abraça a estética dos quadrinhos, criando uma atmosfera que mistura o grotesco e o divertido. A caracterização é propositalmente “cartunesca”, intensificando essa sensação de estar diante de uma “adaptação viva” das páginas de um quadrinho. O uso de animações 2D intercaladas com o live action reforça esse clima de horror colorido e estilizado. Alguns segmentos são um pouco curtos demais para gerar empolgação, mas o charme da proposta mantém o filme sempre interessante.

06

Necronomicon

Brian Yuzna, Christophe Gans & Shusuke Kaneko
1993

Com H.P. Lovecraft, o medo do desconhecido na literatura tomou uma nova proporção. O autor inaugurou o terror cósmico, subgênero que aborda também a fragilidade humana perante o universo. Necronomicon não só adapta Lovecraft como faz dele um personagem: aqui, o autor vai a uma biblioteca procurar o livro-título e, conforme vai lendo, as histórias se tornam novos segmentos, gerando a estrutura antológica. No total, são três histórias, somadas ao trecho de Lovecraft, nas quais acompanhamos ótimos contos de terror regados a incríveis efeitos práticos, muita nojeira e a nata do terror fantástico. Um excelente filme que merece mais reconhecimento!

07

V/H/S

Adam Wingard, David Bruckner, Ti West, Glenn McQuaid & Joe Swanberg
2012

Um grupo de delinquentes que costuma filmar seus crimes é contratado para roubar de uma casa uma fita VHS. Ao chegar no local, descobrem uma coleção de vídeos macabros, a partir dos quais surgirão cinco diferentes histórias de terror para além daquela que as engloba. V/H/S nada mais é do que uma grande brincadeira entre os criadores do site Bloody Disgusting e um conjunto de cineastas independentes e criativos, partindo de uma época em que o subgênero found footage estava em alta, assim como as creepypastas da internet e a ascensão dos desktop movies. Nem todas as histórias são ótimas, mas dá para se divertir e/ou se assustar genuinamente com boa parte delas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *