Antes da trilogia da Netflix lançada com o intervalo de uma semana entre cada parte em 2021, composta pelos filmes Rua do Medo: 1994, 1978 e 1666; esse nome era tão somente de uma série surpreendentemente grande de livros escritos por R.L. Stine (conhecido por diversas obras da série literária infanto-juvenil Goosebumps) publicados desde 1989. O primeiro, The New Girl — conhecido no Brasil como Paixão Mortal — foi um grande sucesso entre adolescentes e jovens adultos, dando abertura para um total de 51 livros pertencentes à série original, e uma diversidade de spin-offs, que incluem: quatro livros de New Fear Street, seis de A Fear Street Novel, três de Return to Fear Street, treze de Fear Street Super Chiller, cinco de Fear Street Cheerleaders, três de The Fear Street Saga, três de 99 Fear Street: The House of Evil, três de Fear Street: The Cataluna Chronicles, três de Fear Street: Fear Park, 36 de Ghosts of Fear Street (estes destinados ao público infantil), dezoito de Fear Street Sagas, doze de Fear Street Seniors e, finalmente, três de Fear Street Nights. Só uma parte bem reduzida destes foi publicada no Brasil.
Assim, é evidente que material original não falta. A trilogia de Leigh Janiak de 2021 foi bastante inventiva nesse ponto, pois misturou aspectos de diversas histórias em prol de potencializar algumas adaptações e alguns objetivos específicos dos filmes. Primeiramente, porque o foco dos livros nunca foi o slasher, mas sim o suspense; já os longas buscam não apenas abraçar o gênero, mas homenagear suas diversas vertentes. Em segundo lugar, pela adição de uma mitologia que une as diversas histórias para além da ambientação em Shadyside: apesar de Sarah Fier (nos livros Sarah Fear) estar na série Fear Street Cheerleaders e a família Goode estar na saga original, Janiak utilizou-os de forma bastante competente para conectar histórias originalmente desconexas, como o acampamento do livro Fear Street: Lights Out e a trama da possessão de Tommy do primeiro livro de Fear Street: Fear Park.
Rua do Medo: Rainha do Baile toma outra direção. Desta vez, buscou-se adaptar diretamente o 15º livro da saga original (que conta com o mesmo nome) e desconectar a história dos outros, ainda que realizadas algumas breves menções para o estabelecer no mesmo universo. É, desse modo, uma história mais contida e com mais cara de slasher clássico — lembrando um pouco Rua do Medo: 1978 — em que acompanhamos Lori Granger, uma menina com um passado familiar sombrio que tenta concorrer contra as garotas populares de sua turma para ser rainha do baile de formatura, porém vê a competição tomar outro rumo quando uma figura misteriosa começa a assassinar as candidatas.
Sem tantas amarras às regras da mitologia, este longa teve a oportunidade de se divertir com as possibilidades do slasher que remete aos dos anos 70 e 80, só que sem as limitações que eles tinham. Todavia, pela maioria da duração o diretor Matt Palmer joga tal oportunidade fora e opta por fazer um terror bem protocolar. Ainda que a obra seja bem redondinha nessa proposta mais modesta, os pontos que deixavam a trilogia de Janiak interessante morrem aqui: com a retirada do desenvolvimento do universo e de um maior pano de fundo dos personagens, não sobra muito, em decorrência da substituição da reimaginação dos clássicos do terror por referências mais superficiais e da proposta visual que não acompanha a ambientação oitentista.
Não achei, porém, uma atrocidade tão grande quanto diversas críticas que li. Isso porque, acompanhado à diminuição de proporções da trama e da decupagem, há uma despretensão nos objetivos delas. O enfoque agora é em um drama adolescente divertidamente bobo que gera grandes consequências, mas cujo peso é restrito àquele pequeno universo e não toma um tamanho grande o suficiente para parecer sério e relevante. Nesse sentido, é tudo muito vinculado aos personagens principais e a escolha de elenco beneficia fortemente o filme, fortalecendo alguns dos trechos mais fracos muito pelo carisma das atrizes, em especial da dupla protagonista Lori e Megan, interpretadas por India Fowler e Suzanna Son; e da antagonista Nancy de Katherine Waterston.
Esses aspectos salvam Rua do Medo: Rainha do Baile de ser péssimo, mas não o elevam a um patamar muito superior. A trilogia de Janiak, mesmo não sendo brilhante, apresentava composições bem honestas que misturavam os clássicos do terror a um aspecto moderno. Rainha do Baile pode manter essa honestidade, mas não consegue trazer muito mais do que isso, restringindo-se a um slasher bastante esquecível e sem personalidade, cujo único ponto de destaque são alguns trechos isolados e as interpretações das atrizes.