ESTE TEXTO CONTÉM ALGUNS SPOILERS!!!

Em 2017, o comediante Jordan Peele – da série de esquetes Key & Peele (2012-15) – deu seu primeiro grande passo como diretor de cinema e surpreendeu a todos. Não apenas porque Corra! era um terror social, mas também porque conquistou crítica e público, tornou-se instantaneamente popular (basta observar sua proliferação em memes pelas redes sociais) e ainda arrecadou o Oscar de Melhor Roteiro Original e indicações a Direção e Filme, algo que poucas obras de terror conquistaram em 97 anos da premiação.

Eu mesmo admito que adoro Corra! e que parte da minha empolgação para o lançamento desse novo filme de Peele vinha de sua poderosa estreia. Mas junto com a empolgação, vinha um bocado de incerteza gerada pela sua segunda obra, Nós (2019), que me frustrou bastante por ser desregulada em tom e ritmo, irritantemente expositiva e prejudicialmente pretensiosa e auto-indulgente. Restava a pergunta: para qual lado seu terceiro projeto seguiria?

Bom, uma das lições que aprendi em anos de cinefilia é que a Arte não é binária e jamais deve ser encarada como tal. Então, logo ao sair da sala de cinema, refleti por um tempo e concluí que Não! Não Olhe! tinha alguns dos pontos positivos de Corra! e alguns dos pontos negativos de Nós, mas que, acima de tudo, era um filme completamente diferente de ambos. Afinal, se o foco de suas duas produções anteriores era encenar uma crítica social incisiva a partir de absurdos costumeiros do cinema de horror (hipnose, troca de corpos, duplicatas, assassinos com armas brancas), aqui Peele se deixa levar pelas convenções de clássicos da ficção científica sem abandonar sua construção de atmosfera enigmática que também estava presente lá atrás. Ah claro, e sem abandonar sua carga de humor, bem mais complementar aqui do que invasiva como acontecia em sua obra anterior.

Acompanhando os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Em Haywood (Keke Palmer) – que treinam cavalos para a produção de filmes ou comerciais – em tentativas ingratas para sustentar a velha fazenda de seu recém-falecido pai, Não! Não Olhe! logo começa a criar um suspense inquietante com algo que pode estar à espreita no isolado deserto da região de Agua Dulce, Califórnia. É nesse contexto que o diretor começa a instigar a curiosidade do público, seguindo a lógica de que precisamos saber tanto quanto os personagens, consequentemente aumentando a imersão, a impressão que estamos desvendando com eles aquele mistério e presenciando aquelas anomalias. Nesse aspecto, a condução de Peele parece pegar como inspiração o clássico Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Spielberg, 1977) e Sinais (Shyamalan, 2002), no sentido de “cozinhar” sua expectativa ao máximo antes de revelar a verdadeira ameaça, enquanto usa a mesma abordagem de Tubarão (Spielberg, 1975) no tratamento que dá ao “monstro”.

Claro que, quando traço tais paralelos, meu objetivo é evidenciar as influências do cineasta, mas não entendam errado: Não! Não Olhe! tem sua boa parcela de originalidade e cria quase um universo próprio a partir de certa iconografia, como o parque temático de faroeste Jupiter’s Claim, os bonecões de posto coloridos, a van da Fry’s Electronics conduzida pelo alívio cômico Angel (Brandon Perea), o capacete retrofuturista do repórter sensacionalista do TMZ no terceiro ato, os cavalos dos Haywood e especialmente o design da criatura nos momentos finais… Todos esses elementos combinados dão a esse terceiro projeto de Peele uma cara própria e o diretor sempre foi bom nisso. Basta notar os macacões vermelhos e as tesouras douradas das duplicatas de Nós, por exemplo.

E para além do conflito direto da ficção científica, é instigante como Peele busca discutir certas temáticas a partir de uma metalinguagem sagaz. Seus diversos comentários sobre a cultura do espetáculo, inserida pelos flashbacks da tragédia da infância de Jupe (Steven Yeun), são ainda mais desenvolvidos com todo o jogo de gato-e-rato entre os Haywood e a criatura não-identificada. A ideia de domar uma criatura “selvagem” e registrá-la a partir da imagem reproduzida ainda cria uma ligação dos irmãos com seu antepassado, o homem negro que montava o cavalo no curta Sallie Gardner at a Gallop (Muybridge, 1878), que jamais fora lembrado. Tudo bem, pode ser que nem todas essas subtramas e intenções do filme casem totalmente com o exercício de gênero que Peele cria aqui, mas deixa o todo bem mais interessante e profundo.

Dito isso, gostei muito de Não! Não Olhe! Além das ótimas performances de Kaluuya e Palmer, Peele faz desse projeto seu mais divertido e imersivo até aqui. E estou ansioso desde já para seu próximo trabalho!