No desfecho de Mais Pesado É o Céu, novo filme de Petrus Cariry, o protagonista vivido pelo sempre ótimo Matheus Nachtergaele quebra a quarta parede, em estado de choque, perguntando ao público: “O que a gente fez com a gente?” Tal frase pode servir como definidora de todo o seu longa, que explora as dificuldades de um homem de meia-idade, uma mulher mais jovem e um bebê – nenhum deles relacionados – pelas estradas secas do Ceará depois de serem desalojados pelo rompimento de uma enorme represa que submergiu a pequena cidade de Jaguaribara.
Nessa premissa, a ideia que Cariry propõe fica clara: a miséria do homem causada pelo próprio Homem. Uma espécie de Vidas Secas (livro de Graciliano Ramos de 1938) em outro contexto, sob outras causas. Considerando o ambiente natural como um belo companheiro em tempos difíceis, o diretor (responsável também pela fotografia) compõe os quadros mais amplos com uma beleza quase pitoresca, embora jamais dispense o naturalismo típico do cinema brasileiro contemporâneo. O pesado céu do título é mais uma referência ao peso da vida constante; afinal, o céu sempre está acima da gente. A abordagem do “teto do mundo” lembra aquela vista em O Céu de Suely (Aïnouz, 2006), com uma vastidão que gera fascínio e, ao mesmo tempo, incerteza.
Nesse pano de fundo, habitam os trágicos personagens de Nachtergaele e Ana Luiza Rios, em uma dinâmica que contrasta a esperança (ou negação) do homem mais velho com o cansaço mental absurdo da mulher que, além de sem-teto e pobre, deve arcar com os infortúnios que o gênero oposto impõe sobre ela. E é justamente nos momentos nos quais os três estão juntos que o filme ganha força, ao passo que seus sonhos vão ficando mais claros, uma pequena família é construída no improviso, e a sensibilidade de Cariry se torna mais patente, até nos momentos mais trágicos.
Isso já não pode ser dito dos momentos focados em suas tentativas individuais de sustento. Claro, alguns são muito eficientes e particularmente gosto bastante dos pequenos momentos de ternura entre Teresa (Rios) e a personagem de Danny Barbosa, mas parece que Cariry acaba caindo na redundância do chamado “misery porn”, perdendo a sensibilidade ao retratar inúmeros abusos sofridos – especialmente por Teresa, claro – que, ao invés de reforçarem a tragédia particular daquela mulher, parecem mais espetacularizar seu sofrimento.
A impressão que fica é que, embora ainda seja um bom filme, Mais Pesado É o Céu serviria bem melhor como um média-metragem ou um filme relativamente mais curto. Detesto ficar dando palpite em duração de filme, mas aqui me parece que faltou ideias melhores para ocupar os 90 minutos de projeção, até para evitar algumas dessas redundâncias que acabam prejudicando um bocado o resultado geral. No mais, é um bom drama, com um desfecho impactante e um ótimo contraste entre a beleza do sertão como ambiente natural e a violência humana presente nesse mesmo ambiente e que faz de tudo para extirpá-lo de sua beleza.