“Após o fim do evento, a foto ainda existirá, conferindo ao evento uma espécie de imortalidade (e de importância) que de outro modo ele jamais desfrutaria. Enquanto pessoas reais estão no mundo real matando a si mesmas ou matando outras pessoas reais, o fotógrafo se põe atrás de sua câmera, criando um pequeno elemento de outro mundo: o mundo-imagem, que promete sobreviver a todos nós.” (Susan Sontag – Sobre Fotografia)
Por meio desse trecho — inclusive mencionado em Oh, Canadá — Susan Sontag reflete sobre o “mundo-imagem” que se reveste dessa pretensão de imortalidade, algo muito parecido com o que Walter Benjamin chamaria de “aura”. Isso se comunica muito com o personagem que acompanhamos no filme, o premiado e revolucionário documentarista progressista Leonard Fife (Richard Gere), o qual irá dar a última entrevista de sua vida a um documentário acompanhado de sua esposa Emma (Uma Thurman), explorando sua juventude (em que é interpretado por Jacob Elordi), seus relacionamentos e sua carreira, com todas as contradições neles presentes.
O documentarista se coloca em uma posição parecida com o fotógrafo de Sontag: cria um novo mundo imortal enquanto registra imagens passageiras. A imortalidade de Fife, porém, vai além de seus filmes, afetando o próprio cinegrafista, que é tido como um símbolo não só do progressismo como do cinema de forma geral; mas não é esse Fife que vemos em Oh, Canadá. Para além do glamour da vida dele quando vivido por Elordi, o diretor Paul Schrader mostra um Richard Gere destruído, doente e confuso. A confusão, aliás, é um dos principais eixos que baseia a narrativa e a montagem do longa, visto que as cenas frequentemente se quebram e se misturam, intercalando cenas de momentos diferentes e até mesmo trocas súbitas de atores, como nos momentos em que Richard Gere aparece para interpretar sua versão mais jovem.
A realidade distorcida lembra pontualmente o ótimo Meu Pai (Zeller, 2020), ainda que com finalidades diferentes. Se o filme de Zeller busca o terror causado pela demência, o de Schrader busca desconstruir o mito. Na primeira cena de Oh, Canadá vemos os documentaristas que irão filmar Fife preparando seu cenário enquanto a trilha sonora ecoa uma lindíssima e onírica música; por meio disso, Schrader está também construindo seu ser mitológico ao mostrar seus prêmios e a devoção que eles têm a Leonard. Todavia, no restante da duração o que vemos não é um ideal, mas uma mentira, uma construção de imortalidade de um passado problemático.
Essa dialética entre a fotografia e a trilha sonora belíssimas e os atos moralmente questionáveis de Fife percorrem toda a obra, demonstrando como a realidade é sempre apenas uma projeção daquilo que escolhemos ver dentro das informações que os são dadas. Assim como em Cidadão Kane (Welles, 1941), aqui vemos uma versão incompleta da vida de um homem socialmente tido como gigante, mas que é apenas um indivíduo pequeno e vazio. É a dialética entre a beleza da fotografia e a decadência de seu conteúdo, entre o galã Richard Gere e o mesmo Gere frágil, entre a imagem imortal e a realidade mortal.
Oh, Canadá é um filme simples — e que poderia ser muito beneficiado por uma maior profundidade — mas bastante efetivo ao explorar essas contradições, algo que o elenco soube transparecer com maestria, ainda que Uma Thurman seja um pouco subutilizada. “Não conheça seus ídolos” diz o ditado popular, e Schrader mostra aqui como todos estamos sujeitos a acreditar em mentiras, mesmo quando vindo de alguém que é um grande artista que defende pautas progressistas e parece viver conforme seus ideais.