Posso dizer com segurança que um dos momentos mais memoráveis do cinema (não só brasileiro) desta década está logo nos minutos iniciais de Oeste Outra Vez. Depois da introdução imponente do personagem de Ângelo Antônio em meio a uma estrada vazia, uma mulher – a única presente em toda a duração do longa – se afasta de uma luta entre dois homens que competem pela sua atenção. A visão de suas costas se afastando no horizonte enquanto a luta dos homens é desfocada pela câmera, ao som de uma balada melancólica de Nelson Ned, já revela o tom do mais novo faroeste revisionista à brasileira do diretor Erico Rassi.

Passando-se em meio a Chapada dos Veadeiros, no interior de Goiás, é perceptível, logo de cara, como o cineasta mescla a beleza da vasta paisagem natural com o abandono daquilo que é humano. Cidadezinhas dilapidadas e desertas, lixo espalhado pela grama de uma bela planície, estradas de terra que jamais conheceram o advento do asfalto… Apesar da presença de automóveis e celulares (que não funcionam bem), há aqui o cenário perfeito para um faroeste. Mas não o faroeste de vaqueiros heroicos, pistoleiros destemidos e donzelas em perigo que movem os objetivos desses homens honrados. Muito pelo contrário, Oeste Outra Vez é o faroeste da solidão. Homens violentos se enfrentando por mulheres ilusórias e demonstrando, através de suas limitações físicas ou de competência, sua natureza patética.

Rassi reconhece como tais personalidades e estilos de vida afastaram a presença feminina daqueles homens. Porém, seu intuito aqui não é aquele da prepotência, de condenar seus próprios personagens por seus atos passados. É um fim humanista de entender as dores dessas figuras trágicas que, apesar de terem feito por merecer, ainda são dignas de serem tratadas como humanos contraditórios.

Logo, Oeste Outra Vez se apresenta como um filme que, apesar de sua já curta duração, toma bastante tempo com seus planos, com as palavras dificultosas que saem da boca de seus reticentes emissores. A linguagem audiovisual aqui é essencial para dilatar o tempo e demonstrar como é estar na pele desses homens cansados, frequentemente bêbados e que vivem não de glórias passadas, mas sim de glórias fabricadas – como um faroeste clássico da Hollywood dos sonhos masculinos. A natureza “testosterônica” desse gênero tão difundido do cinema estadunidense é, aqui, desconstruída para dar lugar a uma espécie de comédia de erros.

Porém, jamais se torna um exemplar desse humor espertinho e pseudo-desconstruído que domina Hollywood. Rassi conduz o humor aqui menos para tentar ser engraçado e muito mais para respeitar a natureza simplória dos habitantes de sua narrativa. O maior exemplo – e talvez o momento mais engraçado do longa – é quando dois capangas descansam em uma espelunca de beira de estrada e tentam compartilhar seus sentimentos, falhando miseravelmente no processo de se comunicar pelo senso deturpado de macheza estoica. O mesmo vale para certa informação dada pelo ermitão interpretado por Antônio Pitanga (sempre brilhante) que, mais tarde, se revela mais uma invenção eufemista, que alivia os arrependimentos e frustrações daquele homem.

O que poderia se transformar em um filme lúgubre e trágico, que explora de forma sensacionalista ou parasitária o sofrimento humano, se mostra um estudo sobre violência e (a falta de) afeto a partir de uma comicidade quase acidental, surgida naturalmente pela clara insegurança masculina. Rassi, com isso, conduz seu magnífico elenco nesta unidade de falas pausadas, tímidas, roucas e fatigadas a partir de um cenário que, assim como seus habitantes, parece ter sido abandonado à própria sorte.

Na última cena de Oeste Outra Vez, ao vermos vários homens envelhecidos e maltratados se reunindo em um bar igualmente descuidado para tomar sua cervejinha e jogar sinuca, ouvimos de uma jukebox mais uma música de Nelson Ned, que conclui a ideia de Erico Rassi para esse brilhante faroeste sobre diversas realidades particulares e coletivas do interior brasileiro:

Mas tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará…