Diferente do recente O Corvo (Sanders, 2024), que desde sua concepção já não parecia saber muito bem o direcionamento que daria ao personagem, Hellboy e o Homem Torto, de Brian Taylor, surge bem decidido sobre que tipo de filme o vermelhão caçador de monstros fantásticos merece. Já tendo uma versão live-action de dois (ótimos) filmes comandados por Guillermo del Toro e uma não tão querida de Neil Marshall (a qual não assisti), o que mais poderia ser feito do diabão ávido apreciador de charutos e tiroteio?

A ideia, em síntese, foi de colocar o anti-herói em meio às Montanhas Apalaches no fim dos anos 1950 para resolver o mistério de uma vila que estaria localizada sobre um portal do inferno e que, por isso, seria constantemente assombrada por bruxas sensuais e traiçoeiras e por uma personificação diabólica conhecida como “o Homem Torto”. Só por essa sinopse — que garanto ser muito fiel ao longa — já dá para perceber o potencial que isso teria nas mãos de um diretor mais autoral, com mais experiência nesse tipo de terror fantástico (logo na saída da sessão, pensei em dois nomes ótimos para comandar: James Wan ou Sam Raimi).

Porém, a direção foi assumida por Brian Taylor que, dono de uma filmografia de ação frenética que divide o público, não parece ter sido a escolha certa para liderar esse projeto. Claro que um filme protagonizado por um demônio que pratica artes marciais e que conta com um arsenal poderoso vai ter ação, essa que aqui surge até decentemente decupada, mas seu aspecto do terror que, no papel, seria mais imaginativo acaba não indo muito longe por cair constantemente em vícios de filmes de terror de estúdio mais recentes. Alguns exemplos são a encenação extremamente escura e cinzenta que não permite que sequências noturnas sejam melhor compreendidas, e o uso inconsequente de jump scares mal posicionados.

Dito isso, não quero dizer que Taylor não tem ideias interessantes ao longo da projeção. Pelo contrário, já que o filme nos joga direto no meio da missão em uma cena de ação que, por sinal, havia sido precedida por um letreiro super simplificado, o qual parecia estar nos introduzindo a um episódio de série de TV antiga. Isso é reforçado pela decupagem das sequências diurnas; ao contrário do breu que compromete as noturnas, tais sequências surgem criando um opressor contraste entre a luz solar e os troncos “esqueléticos” e ressecados das árvores que a tapam por sua numerosa presença.

Basicamente, é como se Taylor estivesse propondo Hellboy e o Homem Torto como um descompromissado capítulo de série procedural meio pulp, uma missão em meio a inúmeras que seu protagonista já participou, sem interesse de criar um novo universo da franquia, como a moda vigente sempre inspira. É como aqueles quadrinhos semanais que querem apenas oferecer um passatempo divertido e macabro momentâneo, o que tem seu valor. Uma pena que, nas mãos de um diretor pouco autoral, tenha ficado tão pouco empolgante.