Pouco depois de George Lucas e Steven Spielberg surgirem em meio à Nova Hollywood e a derrubarem ao estabelecer o blockbuster moderno, um jovem Robert Zemeckis se divertia com suas comédias de início de carreira e, a partir de 1984, passou a trabalhar essa comicidade dentro de premissas mais aventurescas e fantasiosas, como em Tudo por uma Esmeralda (1984) e, é claro, a trilogia De Volta para o Futuro (1985-1990). Essa última, por sinal, determinou aquele que seria um dos temas mais caros para o diretor, algo que tinha em comum com seu parceiro Spielberg: a família americana, mais reforçada ainda pelo seu épico oscarizado Forrest Gump (1994).

Coincidentemente ou não, Zemeckis junta Tom Hanks e Robin Wright mais uma vez para a adaptação cinematográfica de Aqui (McGuire, 1989/2014), graphic novel experimental que se propunha a mostrar o mesmo espaço ao longo de diferentes eras, de antes da Humanidade ao seu futuro incerto. Não li a HQ em questão, mas a abordagem dessa adaptação tem um interesse aparentemente menos existencial do que histórico e social. Pelo menos, em sua superfície. Afinal, aqui vemos um romance indígena antes da colonização europeia dos EUA, famílias brancas lidando com dificuldades profissionais e financeiras no século XX e uma família preta do século XXI ensinando ao seu filho o que fazer se for abordado pela polícia, ao mesmo tempo que é afetada pela pandemia da COVID-19.

Porém, ao olhar mais para o âmago do Aqui de Zemeckis, vemos como o diretor também explora suas próprias questões existenciais, seja sobre a vida das famílias americanas que habitam aquela casa construída ao redor da câmera, seja sua própria natureza como artista autoral. Afinal, para um diretor tão idealista com o tal do “estilo de vida americano” — um Frank Capra moderno, talvez? — não deixa de ser curioso como ele explora diversas vezes a insegurança financeira de sua classe média ou, como supracitado, as contradições de certos ideais, como a casa própria que pode dar mais despesas ou órgãos da lei que geram medo em certos recortes sociais. Isso pode revelar como o realizador quis tornar esse ponto específico, o “aqui”, como um local de amostragem da história comum dos EUA e suas diversas facetas, boas ou ruins.

Além disso, o fato de escolher adaptar a HQ de Richard McGuire demonstra um amadurecimento por parte de um diretor que poucas vezes experimentou com a linguagem do seu cinema, costumeiramente indo por uma vertente mais clássica e tradicional da narrativa. Em Aqui, Zemeckis se diverte com infinitas possibilidades de relacionar suas épocas, seja de forma “premonitória” ou até irônica. Não necessariamente com cortes secos, mas, sim, com quadros menores que invadem o frame para criar um novo significado a partir da combinação, o que é sempre instigante. Desde uma invenção que se torna obsoleta até uma visão do passado que invade o presente de luto através de um pequeno quadro espectrológico ou onírico. E nos casos do uso mais único desse artifício, Zemeckis gera um impacto descomunal, a ponto de uma mera imagem de duas cadeiras posicionadas lado a lado em uma casa vazia já se mostrar emocionante por si só.

E talvez seja justamente por isso que, ao explorar épocas nas quais a casa ainda não era um personagem que abriga a câmera, tudo pareça um tanto artificial ou superficial. Claro que são belos os momentos em que dinossauros ou um funeral indígena passam pelo quadro, mas não parecem comunicar tanta coisa para além de um apanhadão geral das fases daquela terra. A força de Zemeckis mesmo é construir seus personagens naquele espaço delimitado pelas quatro paredes da casa, duas das quais não vemos em momento algum.

Pelo menos, até o plano final, no qual a câmera toma a liberdade de se mover, girar e flutuar para fora da casa e nos permitir presenciar uma vizinhança de várias iguais àquela. Com isso, Zemeckis conclui sua ideia na mais pura demonstração de sua sensibilidade humanista. Depois de nos fazer acompanhar tantas histórias que passaram por aquela única casa, o diretor revela a infinidade de histórias que podem ter tomado conta de centenas, milhares ou milhões delas. Zemeckis aqui se vê não só como o arqueólogo que visita a casa algumas vezes durante o filme, mas como um antropólogo que demonstra curiosidade e interesse pelas vidas de todos os locais e pessoas que passaram por eles.

O “aqui” então torna-se mais que um plano estático, mais do que um ponto geográfico específico, e torna-se um catalisador e preservador de memórias, sejam elas históricas, sociais ou existenciais. E por isso, não pude segurar as lágrimas quando a personagem de Robin Wright, acometida por uma doença que a faz perder progressivamente a memória, retorna àquela sala e retoma parte de suas lembranças. Zemeckis conclui então seu filme experimental com o mesmo coração que havia feito da despedida de Marty McFly e Dr. Brown, assim como a homenagem de Forrest a Jenny em seu túmulo, momentos absolutamente memoráveis do cinema americano.

E que eu esteja chorando ao digitar essas últimas palavras já é prova suficiente de seu êxito como artista!