Um filme em que um homem, saído de um hospital psiquiátrico, invade a casa de uma atriz e a mantém presa – amarrada a uma cama com um esparadrapo na boca – enquanto diz que está fazendo isso para que ela se apaixone por ele. Não é um filme de terror e sim um belo romance. Mas, porque um filme no qual existe violência clara contra mulher não trata esse ato como algo terrível e abominável?
Se Ata-Me (1989) fosse feito hoje é possível que a controvérsia fosse maior do que no lançamento, porque, talvez, desde a época de vigor do Código Hays não vemos tanta a imposição da moralidade estadunidense no cinema como na atualidade. Ainda assim, mesmo no fim dos anos 80, não foi tão bem recebido pela censura dos EUA, sendo catalisador para a mudança da classificação X para NC-17, a partir de um pedido da distribuidora e de Pedro Almodóvar para que houvesse uma distinção na denominação entre filmes para adultos e filmes pornográficos. Por causa disso, Ata-Me (aclamado na Europa, aliás) ganhou notoriedade por lá e tornou-se uma espécie de clássico cult, também alavancando a carreira internacional de Antonio Banderas.
O casal do filme é composto por Ricky (Antonio Banderas) e Marina (Victoria Abril). Ele, um jovem de 23 anos que foi liberado de um hospital psiquiátrico por bom comportamento e também tinha um caso com a diretora, bem mais velha. Ela, uma ex-atriz pornô (e agora de filmes de terror trash), recém recuperada de um vício em heroína, que trabalha com a irmã mais velha e protetora, bem como com um diretor prestes a se aposentar e obcecado pela beleza dela.
Ricky vai até o estúdio de gravação do filme protagonizado por Marina e tenta chamar atenção da moça plantando bananeira. Porém, quando ela não dá moral para ele, o paciente psiquiátrico a segue até em casa e invade o apartamento da atriz, que é, então, usado como cativeiro. É, então, que o jovem explica que eles já haviam se encontrado no passado e ele tinha prometido que voltaria para ela. Já Marina, agora amarrada à própria cama, tenta de tudo para sair de lá, mas também fica intrigada sobre Ricky.
A partir daí o filme foca quase que completamente na dinâmica entre os dois, com Marina e Ricky se conhecendo, entendendo as necessidades e o passado de cada um. Ele faz tudo o que ela pede, a exceção de deixar ela sair, e a atriz aos poucos se identifica com a maluquice e a devoção do jovem.
Vale ressaltar que não há violência física – para além do momento que ele a prende – e abuso sexual de nenhuma maneira, ainda que, obviamente, Ricky tenha imobilizado Marina e não permite que ela saia sozinha ou conte para a irmã o que está acontecendo. Fosse na vida real, isso seria talvez caso de violência psicológica, além do cárcere privado.
Foi por causa disso que a crítica feminista da época falou contra a romantização de um relacionamento tóxico – ou algo próximo do que erroneamente chamam de síndrome de Estocolmo, que a grosso modo seria uma definição para quando a vítima se apaixona pelo agressor. Essa crítica ainda é válida e pode ser uma interpretação do filme, principalmente quando são criados paralelos com a realidade.
No entanto, acredito que o tom camp, absurdo e cômico da narrativa rompe o suficiente essa barreira de realidade para que o que está sendo apresentado não seja compreendido como um retrato fidedigno da vida real. É uma fantasia mais próxima do conto A Bela e a Fera do que da franquia 365 Dias e outras histórias do tipo, apesar de não se passar em um mundo distante.
A grande diferença, talvez, desse filme para outro em que a premissa tenha um viés mais problemático ou até aterrorizante, é a complexidade e nuance de Marina. Ela é uma personagem bem desenvolvida a partir de suas atitudes e comentários jogados em diálogos ao longo da trama, onde informações importantes do seu passado aparecem aos poucos. Almodóvar não se escora em arquétipos ou na exposição clara de todos contextos, a compreensão é demorada e por isso é um processo entender o porquê de ela deixar-se envolver pela situação de perigo em que vive.
Porém, ao mesmo tempo em que Marina se apaixona, o espectador também é convidado (e talvez desafiado) a ter empatia e carinho por Ricky. Ele é imaturo, mas também ingênuo e até meigo, além de muito pouco ameaçador – o que, por outro lado, poderia ser uma característica de filme de terror não fosse a narrativa tratar isso de uma forma honesta. Marina por vezes consegue enganá-lo com uma certa facilidade e tem suas demandas atendidas por ele: como quando reclama do esparadrapo estar machucando a pele e ele compra outro melhor.
A graça do filme é estar nesse limiar do que é criminoso ou não, do que é romântico, fetichista ou sensual, além de questionar os limites da moralidade. Ele quase não tem sexo propriamente dito e a nudez é usada como algo trivial, raramente como um elemento de sedução. Ainda assim há uma tensão sexual constante, muito pela química do casal, e expectativa sobre o que pode acontecer entre eles.
No final das contas a autonomia de Marina, a conexão entre as vidas deles e o consentimento dela são características chave para que o tom de comédia romântica seja efetivo e o casal possa convencer como duas pessoas se apaixonando, mesmo em uma situação descabida. É também por isso que uma premissa aterrorizante torna-se leve e engraçada.