O principal problema de O Curioso Caso de Benjamin Button está menos nas alterações pontuais que David Fincher faz em relação ao conto de F. Scott Fitzgerald do que na maneira como essas escolhas acabam destruindo a própria lógica que dava sentido à premissa original. A história de uma vida vivida ao contrário, em Fitzgerald, é condensada em poucas dezenas de páginas, sendo essa velocidade não apenas uma característica narrativa, mas parte essencial de seu efeito. A cada avanço da leitura, Benjamin atravessa anos de sua existência, de modo que acontecimentos enormes, como participar de uma guerra, apaixonar-se, casar, ter um filho e envelhecer, são tratados com uma objetividade que produz uma sensação cumulativa de inexorabilidade. A própria forma do conto parece acompanhar o relógio de Benjamin: quando o leitor percebe, já se passaram anos e um novo estágio de sua vida começou. Fincher faz justamente o movimento contrário ao transformar a premissa em um filme de quase três horas, expandindo arbitrariamente determinadas fases da vida do personagem e fixando-se nelas. O que poderia parecer um aprofundamento acaba produzindo o efeito oposto: ao desacelerar e congelar o tempo, o filme neutraliza justamente a experiência temporal que tornava o caso de Benjamin extraordinário.
Essa diferença formal também altera a natureza da própria história. No conto, a reversão do envelhecimento não serve apenas para construir uma narrativa curiosa sobre um homem que nasce velho e morre criança, mas para comprimir uma existência inteira e submetê-la à lógica absurda de um relógio que nunca deixa de avançar. Benjamin não é apenas um personagem que atravessa acontecimentos extraordinários; ele é uma espécie de mecanismo narrativo através do qual Fitzgerald observa a passagem do tempo e o modo como uma sociedade reage a alguém que não consegue ocupar adequadamente nenhuma das posições que ela estabelece para as diferentes fases da vida. A adaptação, ao contrário, transforma essa premissa em uma narrativa convencional de aventura, romance e amadurecimento, na qual determinados períodos recebem tempo suficiente para adquirir uma autonomia dramática. Benjamin passa a viver uma sequência de experiências que poderiam pertencer a praticamente qualquer biografia excepcional, enquanto a condição que deveria reorganizar nossa percepção sobre a passagem do tempo se torna progressivamente apenas um elemento curioso de sua história.
Mais problemática ainda é a eliminação das contradições que constituíam a própria existência de Benjamin. Fitzgerald constrói uma personagem atravessada por relações de amor e ódio, rejeições que partem dos outros, mas também dele próprio, e conflitos que não podem ser reduzidos à condição de vítima de uma anomalia. Isso já está presente na própria cena de seu nascimento: antes mesmo que a narrativa descreva propriamente o corpo daquela criança-idosa, a reação dos médicos e dos presentes no hospital estabelece o grotesco da situação, fazendo com que Benjamin seja recebido como uma aberração cuja simples existência provoca repulsa. Seu pai, ao deparar-se com aquela criatura, chega a pensar que preferiria que o filho tivesse nascido negro, uma frase particularmente brutal porque situa imediatamente a anomalia de Benjamin dentro das contradições raciais da sociedade em que ele nasce, ainda durante a vigência da escravidão. Posteriormente, sua vida continua atravessada por essas contradições: o pai oscila entre amor e ódio; Benjamin, depois de se apaixonar pela esposa, passa a sentir repulsa por ela conforme rejuvenesce e procura a farra; seu próprio filho passa a rejeitá-lo quando ele se torna jovem demais para ocupar a posição paterna. Nascido na Confederação, Benjamin atravessa ainda a Guerra Hispano-Americana e é impedido de participar da Primeira Guerra Mundial por já estar jovem demais. A vida reversa, portanto, não produz uma existência sentimentalmente pura, mas uma sucessão de inversões em que Benjamin tanto é rejeitado quanto rejeita, tanto ama quanto sente repulsa.
Fincher elimina justamente essa dimensão incômoda ao transformar Benjamin em uma figura essencialmente conciliatória. Ao deslocar seu nascimento para o pós-Primeira Guerra e colocá-lo sob os cuidados de uma mãe negra, o filme poderia ter explorado as tensões históricas e raciais implicadas nessa escolha, mas prefere uma representação conciliatória da sociedade americana, na qual a condição de Benjamin raramente produz consequências sociais concretas. O preconceito que deveria acompanhar sua existência praticamente desaparece; sua relação amorosa é construída em torno de um longing por um amor idealizado, sem que a narrativa preserve os lados erráticos e contraditórios presentes no conto; e a existência de um filho que pudesse rejeitá-lo é igualmente eliminada. Até mesmo o grotesco de seu nascimento é substituído por uma versão muito mais sentimental, na qual a monstruosidade inicial da situação rapidamente cede lugar à aceitação. Benjamin deixa de ser uma aberração que expõe as convenções sociais e passa a ser um homem excepcional que desperta empatia justamente por sua inocência.
É nesse processo que a adaptação encontra seu maior afastamento do material de Fitzgerald: O Curioso Caso de Benjamin Button transforma uma fábula satírica, cruel e profundamente contraditória em uma história de amor e aceitação. A vida de Benjamin, que no conto era marcada pela velocidade, pela rejeição e pela impossibilidade de conciliar sua existência com as expectativas sociais ganha. no filme. uma estrutura conciliatória que procura extrair beleza e melancolia de sua condição.