É difícil não comparar o novo filme do diretor David Robert Mitchell, de O Mistério de Silver Lake (2018) e Corrente do Mal (2014), com os filmes de Steven Spielberg, especialmente pré e incluindo Jurassic Park (1993). Primeiramente tirando o apatossauro da sala: talvez seja o primeiro live-action de dinossauro com um elenco A-list, orçamento médio para alto e distribuído por um grande estúdio (Warner) fora da franquia iniciada em 1993. Além disso, tem um tom engraçadinho e bastante sarcástico, tem uma aventura familiar, com crianças e pais que precisam resolver questões pessoais, junto ao terror de monstro que causa ansiedade e pitadas de ficção científica. Vale também apontar que a produtora é a Bad Robot, de JJ Abrams, quem também bebe muito da fonte de Spielberg em sua produção como cineasta.
Com o roteiro original também assinado por Mitchell, a narrativa se passa em um bairro pacato de uma cidade dos EUA na década de 1980, onde todo mundo se conhece. No entanto, após luzes estranhas aparecerem no lugar e gerarem um cataclisma, o meio urbano fica cercado por uma floresta pré-histórica cheia de animais. Por isso, Denise (Anne Hathaway) pausa a escrita de seu livro e também a conversa sobre divórcio com Greg (Ewan McGregor) para proteger os filhos adolescentes de dinossauros e outros animais carnívoros que agora habitam a vizinhança.
A grande diferença deste para o que se espera de um filme com “cara de Spielberg” são as várias piadinhas escatológicas e sexuais e alguns movimentos de câmera e enquadramentos. Um exemplo disso é visto durante uma conversa da família na casa em que uma pessoa está em close-up extremo e a outra em plano aberto no mesmo quadro (split diopter). Fora isso, o longa remete aos clássicos de Spielberg em diversos aspectos, especialmente em relação à dinâmica familiar, à trilha sonora e a encenação dos animais.
No que tange à família, esta segue aquele padrão do diretor de um marido e uma esposa em crise, pais de um casal de filhos; o qual, no caso de O Fim da Rua, é composto por uma filha com interesse especial em física e astronomia, e pelo irmão mais novo, menos esperto, e possuidor de uma conexão especial com seu cachorro. Sobre a trilha sonora, o compositor Michael Giacchino remete constantemente às trilhas clássicas de John Williams com a base em instrumentos de corda e o uso lúdico de madeiras, harpas e xilofones em melodias leves, permeadas por pequenos momentos melódicos que indicam uma presença sinistra. Por fim, a maneira de filmar os bichos lembra Spielberg em diversos momentos, como ocorre na primeira aparição do (que eu imagino ser um) deinonychus, em que o animal não surge imediatamente, sendo precedido por vocalizações, movimentos de plantas e objetos, gritos de pessoas e pegadas até aparecer a primeira parte do corpo dinossauro e, aí sim, ele se revelar como uma ameaça.
Pausa para o momento nerd de dinossauro. Os bichos criados para o filme atualizam algumas características que hoje sabemos que algumas espécies de dinossauros tinham — como a existência de penas — e trocam o t-rex por alossauro e outros grandes carnívoros, mas a mistura de referências e a liberdade artística prevalecem. Tem espécies de eras diferentes: saurópode com proto pêlos e outros animais gigantes que não são dinossauros também representados — de répteis enormes aos conhecidos pterossauros. O importante é que, ao contrário dos bichos dos últimos filmes da franquia Jurassic, eles tem um design interessante e representam um perigo real ou algum impedimento para a fuga dos humanos, mesmo quando não carnívoros.
Os bichos também colocam medo. Depois da revelação da existência dos animais pré-históricos, cada encontro tem sua peculiaridade: alguns aparecem sorrateiramente, outros já estão em cena (mesmo quando os personagens ainda não estejam vendo); uns surgem em partes primeiro e outros são vistos à distância em atos violentos e sanguinários. A angústia constante lembra também de Corrente do Mal, sendo o diretor bastante corajoso em algumas cenas mais violentas, apesar de o filme ainda ter o clima de aventura para a família.
No fim das contas, por mais que pareça outros filmes, O Fim da Rua ainda consegue ser um sopro de originalidade em um oceano de remakes, sequências e adaptações em que está o cinema hoje. As inspirações são muito claras, porém, ainda assim, o diretor consegue criar algo novo, carismático, divertido e um também um tanto peculiar quanto seus filmes anteriores.