O último filme exibido na Mostra Caleidoscópio foi a animação Nimuendajú, dirigida por Tania Anaya. Contando a história de vida de Curt Nimuendajú, etnólogo alemão conhecido pelos estudos sobre comunidades indígenas brasileiras, o filme mistura a técnica de rotoscopia, um tipo de “filmagem desenhada”, com belas paisagens em duas dimensões ou delineadas de maneira a parecerem inacabadas.

No entanto, apesar da animação interessante, da importância do trabalho histórico do personagem e de ele ter sido acolhido realmente por diversas etnias como parte da aldeia (vide o nome, dado a ele pelos Apapokuva-Guarani), o filme cai em um retrato condescendente sobre os indígenas e cria uma narrativa de “salvador branco” daquelas pessoas.

REPLIKA

Em 2010 a Gruta de Kamukuaká, localizada no território indígena do Xingu, em Mato Grosso, foi reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural pela importância ancestral e sagrada para a comunidade indígena Waujá. No entanto, em 2018, os desenhos rupestres, que contavam a história deste povo, foram destruídos e até hoje não se sabe por quem. Essa realidade é a base da narrativa do curta documental dirigido por Piratá Waurá e Heloísa Passos.

O filme usa entrevistas, imagens da região e animação para mostrar a importância daqueles símbolos para o povo Waujá, ressaltando a persistência da memória e resistência coletiva em manter suas tradições, cultura e história apesar dos ataques.

Fogo abismo

FOGO ABISMO

O único filme do Distrito Federal na Mostra Competitiva Nacional é o curta de Roni Rabelo, que conta um pouco da história da infância do cineasta por meio da leitura de uma carta escrita por ele, quando criança, em 2002.

O diretor conta suas vivências na Vila Rabelo, ocupação irregular em Sobradinho II, periferia do DF, por meio de uma narração em off com fotografias e imagens encenadas, a partir de sua visão infantil das situações. Ele observa, por exemplo, que a mãe costuma ter medo de chuva e que o pai tem medo de fogo, pois ambos têm a capacidade de destruir as casas na comunidade, diferente das pessoas de Brasília, que não precisam ter medo dessas coisas. No entanto, o pequeno Roni acaba usando desse medo como revolta.

Futuro Futuro

FUTURO FUTURO

Com as gravações prejudicadas e atrasadas pela enchente devastadora em Porto Alegre, em 2024, o filme de Davi Pretto é o último exibido na Mostra Competitiva Nacional da 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O longa se passa em um futuro distópico em que os endinheirados moram em arranha-céus isolados do restante da população após, supostamente, uma epidemia assolar o país.

É neste contexto em que K se vê perdido pela área desafortunada da cidade, sem memória de sua identidade e seu passado, quando recebe o panfleto de uma escola de inteligência artificial. Lá ele conhece Sílvio, um senhor também estudante, que irá ajudá-lo a se recompor (ambos excelentes atores, aliás).

O mais interessante dessa obra é ver como os vídeos criados por inteligência artificial podem ser utilizados dentro da narrativa de um filme de modo a fazer sentido na proposta e também ser um recurso que ajuda a cortar custos. Aqui estes fazem parte da memória (ou talvez também previsões do futuro) do protagonista, sempre também destacados pela cor vermelha, e por isso a natureza de “vale da estranheza” da IA seja um componente criativo para compor essa visão.

No entanto, a parte “real” da narrativa fica aquém pela falta de clareza temática na abordagem, pois não decide o que realmente quer discutir e assim tudo fica apenas no superficial: como a luta de classes, o existencialismo, a busca por identidade e as relações humanas.