Neste quinto dia do festival, os filmes da Mostra Competitiva falaram sobre exploração e luta de classes.

A Pele do Ouro

A PELE DO OURO

Este curta tem a direção de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo e é narrado e protagonizado por Patri, uma mulher venezuelana prostituída desde a infância e que vive um período sufocante como escrava sexual em um garimpo em Roraima. Baseado nos escritos feitos por ela em um caderno, o filme foca principalmente nas vivências e na resiliência da protagonista como forma, também, de denúncia contra a exploração sexual.

O rosto de Patri nunca é mostrado, mas seu corpo é esmiuçado quase que por completo, literalmente dos pés com sapatos de salto aos cabelos longos e pretos, de forma sensível e acolhedora enquanto a narração contextualiza as experiências da moça. É “uma história de sobrevivência”, nas palavras da própria, para dar voz a outras mulheres como ela.

Cantô Meu Alvará

CANTÔ MEU ALVARÁ

O diretor Marcelo Lin explicou que seu filme fala sobre liberdade, seja das construções sociais ou dos estereótipos pejorativos. Por isso, o título Cantô Meu Alvará, uma expressão usada por pessoas presas quando conseguem sair de sua prisão. Alvará também é o nome do passarinho, enjaulado, por quem as jovens Lara e Nayara estão responsáveis naquele momento.

Filmado no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, o filme discute o poder de ousar sonhar além do que é negado e dos desejos e o medo do futuro de quem muitas vezes não tem acesso a oportunidades. Além disso, também comenta sobre a união daquela comunidade, onde, apesar das dificuldades, todos se conhecem e se ajudam.

Aqui Não Entra Luz

AQUI NÃO ENTRA LUZ

O documentário é, ao mesmo tempo, um panorama íntimo sobre as trabalhadoras domésticas no Brasil, bem como um recorte potente da vida da diretora Karol Maia junto de sua mãe, Miriam. Além disso, ainda traça um paralelo forte entre o período da escravidão e a exploração velada dessas profissionais nos dias de hoje.

Essa relação é feita visualmente, demonstrando o tamanho dos quartinhos de empregada, comparando com o resto da casa, questionando o que realmente cabe em cada espaço e, também, fazendo uma analogia entre esses ambientes e a casa-grande e a senzala. A segregação vem ainda do local da casa onde as dependências ficam: do lado da cozinha ou da área de serviço, onde as trabalhadoras dormem com o cheiro dos produtos de limpeza.

Para além da denúncia fria, o ponto principal da narrativa são as entrevistas com trabalhadoras domésticas de vários estados do país. Algumas extremamente emocionantes, como quando Cristiane conta que a filha foi levada embora pela antiga patroa; outras já mais descontraídas, como Mãe Flor contando causos da patroa doida. No entanto, todos os relatos do filme têm pontos em comum, como a exploração do trabalho infantil, o descaso com direitos trabalhistas e o tratamento desumanizado das profissionais nas casas “de família”.

Em meio a uma entrevista e outra, Karol Maia também narra a história da própria família, desde o tempo em que a mãe a levava para o trabalho quando ela era menina, para que elas pudessem passar mais tempo juntas, até o momento em que a diretora finaliza a produção do filme.