Na franquia John Wick, composta por quatro filmes lançados entre 2014 e 2023 e pelo spin-off Bailarina em 2025, há uma forte tendência à sacralização das regras. Mesmo não tendo elas caráter religioso ou místico, são tradições tão antigas e veneradas quanto a própria religião. Não à toa, tanto em John Wick quanto em Bailarina são centrais para a trama cenários como igrejas e monumentos históricos — estes últimos, muitas vezes sendo também locais religiosos, vez que a história da Europa está conectada à história do cristianismo. No entanto, essas construções nunca são tidas como sacras em si. Isso é visível, entre outros trechos, em John Wick 4, quando uma linda cena em um templo é interrompida com um tiro vindo de ninguém menos que o próprio Padre. A sacralidade, assim, não vem de Deus, de Cristo ou da Igreja Católica — o sagrado vem da própria Cúpula.

A Cúpula é uma ordem profundamente iconófila. Construiu em torno de si uma organização complexa, hierárquica e minuciosa, a fim de manter sua continuidade. Um dos pressupostos da ação humana é a certeza do êxito, e a força dessa certeza é diretamente proporcional à eficiência das organizações e, consequentemente, aos frutos dos esforços. Esse é um dos motivos pelos quais a humanidade busca desde sempre a metafísica: ao colocar regras na ontologia do universo, o ser humano encontra um propósito maior e independente de si. No fim das contas, é uma necessidade de otimismo e de um caminho predeterminado que leva o indivíduo a convicções como fé e magia, as quais tomam forma material pelos símbolos. A Cúpula achou essa certeza de êxito na crença em relação ao respeito aos ícones, às tradições e aos acordos.

Assim, não se trata de religião, tampouco de magia; trata-se de uma terceira coisa que a elas muito se assemelha. Menor do que as crenças espirituais, porém, sem dúvida, maior do que a fé nas instituições sociopolíticas modernas. Contra a Cúpula não cabe questionamentos e nenhum valor pode ser tornado maior que os interesses do grupo. Esses interesses não são, todavia, tão simples quanto meras manifestações de poder — como um rei que governa pelo terror e corta cabeças de seus dissidentes. Os objetivos da Cúpula são legitimados, primeiro, por se apresentarem como regras maiores do que seus participantes, às quais eles próprios estão submetidos; segundo, por garantir a todos, ao menos na aparência, um acesso ao Deus do homem moderno: o dinheiro.

A organização, desse modo, atende a necessidades humanas básicas. Segurança, pois oferece uma proteção para seus membros, como ocorre com os hotéis; atendimento a condições materiais de existência, por meio da possibilidade de ganhos financeiros; previsibilidade, por contar com regras estritas e estáveis; entre muitas outras. Contudo, pede em troca um esforço altíssimo e riscos constantes, algo comum a todas as sociedades e que, aqui, é apenas amplificado. Se em nosso cotidiano sacrificamos nossos dias e noites em prol de uma promessa de satisfação de necessidades materiais; não seria estranho uma organização na qual pessoas sacrificam e se arriscam muito mais em troca de uma recompensa extraordinariamente maior. Ressalte-se que, com essas observações, não trato do aspecto moral do trabalho retratado nos filmes, visto que meu objeto de análise não é ético, e sim uma breve busca das estruturas e funções da sacralidade na franquia, e como tudo isso se desfez.

Retornando a meu ponto anterior após esse curto parênteses sobre a moral, estava dizendo que a Cúpula atende a necessidades básicas por meio de riscos elevados que conduzem, caso os serviços sejam bem-sucedidos, a uma certeza de êxito, e que isso a legitima socialmente. Essas regras, além de legitimadas materialmente por esses fatores, devem ser legitimadas culturalmente, e isso é o que os símbolos garantem. A diferença entre termos como contrato e casamento, entre moral e lei, entre místico e abstrato, não é uma segregação quanto à natureza. Juridicamente, o casamento pode ser visto como um contrato. Quando avaliados em seus fins, ou seja, da previsão de um comportamento ideal, um código moral e um código legal convergem consideravelmente. Na prática, crer em um totem e em uma ideia abstrata de nação pertencem ao mesmo campo. A distinção reside em sua função culturalmente analisada: o contrato busca (normalmente) o patrimônio, enquanto o casamento procura uma série de atos que vão desde o afeto e a reprodução até as próprias relações patrimoniais. A moralidade, por mais que seja socialmente determinada, é internalizada no ser humano e busca a paz dele consigo mesmo e, por consequência, a paz social; a legislação tem como finalidade pura e fria a paz social e a manutenção da ordem vigente. Totens são símbolos que lembram o indivíduo da maior função da religião: a de atuar nas partes da ação humana em que o conhecimento falha. A nacionalidade, que se corporifica em estátuas, construções e bandeiras, fornece ao humano uma ideia de unidade externa, que independe de sua individualidade psicológica, uma abstração de propósito que une pessoas que falam a mesma língua e têm costumes semelhantes.

A iconofilia da Cúpula supre essa necessidade cultural. A estrutura das ações da organização é de contratos, mas a função é muito maior do que isso, pois apela ao belo, ao respeito aos símbolos, à grandeza da instituição perante os indivíduos, à democracia das regras escritas, à promessa de que há uma saída do inferno em que aqueles indivíduos vivem em troca de suas recompensas. Além de suas normas complexas e pretensamente estáveis, o grupo as comunica de uma forma imponente, por meio de locais respeitáveis, cuja arquitetura é ampla e bela, e que outrora abrigaram reis e líderes religiosos, para os quais aprendemos a dobrar o joelho ao longo dos anos. É, assim, um novo tipo de sagrado.

john wick 3

Uma leitura superficial poderia levar à conclusão de que, sendo a Cúpula o sacro, John Wick seria o profano, porém essa análise deve ser mais complexa. O maior fator para isso é que John Wick não é um agente, e sim o oposto disso: Wick não se opõe à organização, tampouco ao sagrado, ele apenas reage à profanação desse sagrado. Essa profanação surge na própria Cúpula e é o que gera sua falha, aspecto que leva, em última instância, a John Wick. Em um momento no último filme, o Marquês de Bill Skarsgård menciona que o personagem de Keanu Reeves não é a falha em si, mas o rosto do fracasso de Winston, o dono do Continental de Nova York. Todavia, essa afirmação está só metade correta, dado que vem de uma deficiência muito anterior; de uma secularização que dá espaço para homens como John Wick, Winston, Charon, King e Shimazu agirem. A Cúpula divorciou-se de suas funções e se tornou uma manifestação de poder político que esconde sua crueldade por meio da burocracia. Essa burocracia não é mais sagrada e, portanto, não legitima a instituição. Não sendo legítima, pode ser questionada; não sendo sacra, torna-se política; não sendo simbólica, transforma a regra em caos; ao ser incapaz de se justificar, perde a base de sua estrutura.

A Cúpula acredita ser capaz de se manter apenas em suas bases materiais e promessas de recompensa. Entretanto, a realidade mostra o contrário: caso o mundo fosse determinado apenas pela estrutura econômica, todos os países pobres haveriam levado a cabo revoluções, a religião não estaria presente entre os ricos e a arte já não mais existiria. A legitimidade de uma instituição é cultural, e culturas impostas à força tendem à ruína, o mesmo destino a que caminham aqueles institutos que não mais correspondem às necessidades dos indivíduos; e o mesmo fim para o qual a Cúpula teria se os seus termos permanecessem idênticos. John Wick não é o fim dessa ordem, ele é a imagem de uma extinção causada por si própria quando ela constantemente quebra a confiança dos membros, deixa de cumprir com as promessas de aposentadoria e prosperidade e para de garantir a segurança de seus integrantes. É em nome da ordem, da hierarquia e da harmonia que se destroem hotéis e se aniquilam membros dissidentes, mas essa imposição da ordem acaba apenas expondo a farsa que a confiança na Cúpula se tornou.

Nesses cinco filmes, é evidente como a destruição causada pelo protagonista é muito mais significativa que a mera violência ou a destruição de um vilão. A franquia consubstancia-se, para além da ação, em uma história de rompimento entre o sagrado e o secular. Ao profanar a sua própria sacralidade, a Cúpula seculariza-se e, com isso, torna-se palco de disputa política. Contudo, em uma sociedade de assassinos, valores como honra ou honestidade não existem de forma independente e, desconstituída a motivação transcendental da instituição, ou seja, a segurança e a certeza de sucesso materializadas pelos símbolos, sobra apenas a violência e a desordem, algo que condena a Cúpula ao anacronismo e, consequentemente, à extinção, por não mais atender às suas funções e se transformar apenas um agente burocrático de imposição de regras, as quais se tornaram ilegítimas, por não haver mais razão espiritual para cumpri-las. John Wick, desse modo, é menos um agente do caos e mais um vetor de progresso que inicia uma mudança de paradigma nessa ordem obsoleta.