Depois da linda abertura desta 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na última sexta-feira (12), com o filme O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, tivemos, no sábado (13), o início da programação oficial do festival que está comemorando 60 anos de existência — o mais antigo do país.

Por aqui, vou acompanhar principalmente a Mostra Competitiva Nacional, mais especificamente os curtas e longas que estão na disputa para a premiação que ocorrerá no próximo sábado (20), no Cine Brasília. Neste primeiro dia, também acompanhei o debate sobre O Agente Secreto, com o diretor e parte do elenco e produção presentes, revelações sobre os bastidores do filme e conversas sobre a repercussão internacional, bem como comentários sobre referências e temas abordados na narrativa. Foi explicado, por exemplo, o processo árduo de encontrar as locações de época e a volta do diretor ao Cinema São Luiz, um marco de Recife. Além disso, Kléber Mendonça Filho contou de onde surgiu a ideia de usar a perna cabeluda, um exemplo de notícia que mascarava violências cometidas na época da Ditadura no Brasil.

Logos

LOGOS

O primeiro filme exibido na Mostra Competitiva Nacional foi o curta de autoficção da diretora gaúcha Britney Federline. Com uma narrativa que mescla o trauma da pandemia de COVID-19 e a relação conflituosa com o próprio corpo, ela explora esse sentimento de confusão e quase morte com uma montagem fragmentada de memórias da infância, do hospital e do mar, todas amarradas pela narração de sua mãe.

O caráter pessoal da narrativa, junto ao impacto das imagens — especialmente com o leito de hospital sobre o mar —, emociona. De acordo com a própria diretora, essa era a intenção primordial: que o filme se comunique com o público. Britney, segundo ela mesma, já é uma sobrevivente sendo uma travesti de 41 anos, e o curta transmite exatamente esse sentimento de persistência.

Safo

SAFO

Esse curta em animação de Rosana Urbes foi vencedor do prêmio Prix Alexeïeff-Parker, dado a pioneiros em tecnologias de animação no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, o mais importante do formato. Com uma mistura de técnicas que vão desde a animação clássica, com desenhos feitos com carvão, tinta e pastéis, até a fotografia e stop motion, a diretora conta um pouco da história da poetisa Safo e de como sua obra foi apagada, restando apenas fragmentos e citações.

O filme é embalado por uma narração suave, com imagens de sobreposições com folhas de plantas e folhas de livros, flores e páginas com desenhos que dançam no ritmo da história, criando um imaginário lúdico e bucólico sobre a poetisa e, por extensão, também sobre feminilidade.

Morte e Vida Madalena

MORTE VIDA MADALENA

O mais novo longa do diretor cearense Guto Parente é uma dramédia que conta a história de Madá (Noá Bonoba), uma mulher grávida de oito meses que acaba de perder o pai cineasta e decide que irá produzir e filmar o último roteiro escrito por ele. Dessa forma, ela convoca uma equipe de desajustados para levar adiante a produção do filme, uma ficção científica B.

A comédia é muito presente, principalmente quando evoca as atribulações dos bastidores das filmagens, com diversas situações tão inusitadas quanto plausíveis, como o sumiço do diretor, a dispersão do elenco em festa, falhas de objetos e figurinos e até surtos do protagonista da ficção.

Por outro lado, o drama interno de Madalena é demonstrado a partir de fragmentos de memórias de sua infância com o pai e ao ter que lidar com inúmeras situações avessas e pessoas caóticas, seja na produção do filme ou na vida pessoal. Com isso, o longa ganha dois tons divergentes (a morte e a vida?) que não dialogam com naturalidade e, em muitas sequências, acabam se anulando, quando, por vezes, ficamos apreensivos em uma cena com intuito cômico e esperando a piada nos momentos que deveriam emocionar.

Ainda assim, vale destacar o mérito de um elenco muito coeso e à vontade que de fato passa para o espectador a sensação — destacada, aliás, por Madalena na narrativa — de que a beleza da produção de um filme é a coletividade e a conexão com as pessoas da equipe.