Um filme contando a história de Ed Wood Jr., também conhecido como “o pior diretor da história” e criador de filmes B que se tornaram clássicos cult entre fãs de produções trash, é uma proposta que pode ser vista como uma espécie de antítese quando se fazem filmes sobre a vida de artistas. O intuito aqui é o mesmo: homenagear seu trabalho e seu amor pelo cinema. O diretor Tim Burton, em um de seus melhores projetos, presta esse tributo ao filmar em preto e branco e utilizar composições de imagem que, em determinadas cenas, remetem muito aos filmes antigos por meio de jogos de luz e sombra.
A performance de Johnny Depp é carregada de jovialidade e inocência. Existe uma determinação muito sincera e autêntica naquilo que ele se propõe a fazer, apesar das adversidades. Nesse sentido, o mais impressionante é que o filme não reduz Ed a simplesmente um mero idiota, representando-o como uma pessoa boa e acolhedora, além de evidenciar suas próprias características, como o fato de gostar de se vestir como mulher por conforto.
É muito interessante também a forma como o filme evidencia, em diversos momentos, as dificuldades de Wood para conseguir financiamento para suas obras, até mesmo no circuito de filmes independentes, onde, teoricamente, as produções teriam menor custo. Isso evidencia como o cinema é uma arte cara e como é uma grande conquista para os realizadores conseguir dinheiro para tirar seus projetos do papel e finalizá-los a tempo. Todas essas combinações de fatores rendem situações bastante arriscadas e, em certas vezes, até engraçadas.
Há também as homenagens a Bela Lugosi e ao seu papel significativo no cinema de horror clássico da antiga Hollywood. O filme fala muito sobre como grandes nomes do cinema podem ser jogados ao ostracismo quando deixam de atender aos padrões da grande indústria e mostra a importância da amizade entre ele e Ed, grande admirador de seus filmes. Essa relação foi fundamental para que Lugosi voltasse a ser valorizado e reconhecido em seus últimos anos de vida. Essa ligação engrandece tanto Bela, como um ator importante e estrela de grandes clássicos, quanto Ed Wood como ser humano, já que o colocou em seus projetos e o ajudou nos momentos de dificuldade, em meio a diversos problemas financeiros e à dependência química.
Burton transforma Ed Wood em um personagem fascinante de maneira direta e contraditória. O filme inteiro é carregado de um fortíssimo senso de ironia ao retratar a história e a carreira de um cineasta sem qualquer talento e fracassado de forma heroica e dramática, pois é assim que ele se vê. O grande clímax é o lançamento de Plano 9 do Espaço Sideral, seu filme mais famoso e também considerado um dos piores da história do cinema. É uma sensação bastante conflitante: ao mesmo tempo em que sentimos admiração por sua persistência e paixão pelo cinema, também sentimos pena — ou até rimos — de sua incompetência e de sua completa falta de noção.