Se hoje estamos cercados por filmes de terror que transformam o trauma em destino e frequentemente parecem constrangidos em assumir plenamente o gênero, é curioso voltar aos anos 2000 e encontrar em Abismo do Medo uma protagonista que perde a filha e faz dessa dor uma força motriz para um exercício de horror, ao invés de encerrar toda a narrativa nela. Neil Marshall entende que o trauma de Sarah é um ponto de partida, não um ponto de chegada e, por isso, o terror nunca se reduz à sua psicologia, mas encontra uma forma de materializá-la na própria experiência física da caverna.
Marshall é um bom artesão e se preocupa principalmente com a encenação interna desse espaço. Para preservar um forte senso de naturalismo, faz com que a iluminação quase sempre venha da própria diegese — lanternas, sinalizadores e até câmeras digitais —, restringindo o campo de visão ao que as personagens efetivamente conseguem enxergar. A partir dessa limitação, encontra na blocagem e no posicionamento da câmera alternativas para enclausurar e claustrofobizar seus corpos entre as rochas e o desconhecido. Seja deslocalizando constantemente o espaço, seja aproximando a câmera demasiadamente das personagens, transforma a caverna em um organismo vivo que nunca pode ser plenamente apreendido.
Por isso, o filme é assustador antes mesmo de se alternar para o sobrenatural. Há algo na sobrevivência da própria caverna que permanece mais misterioso do que as criaturas que surgem depois. Enquanto o ambiente impõe um enfrentamento sem regras claras — apenas a angústia de encontrar uma saída —, as criaturas deslocam o eixo da narrativa para algo mais próximo do cinema de ação, em que a tensão passa a depender de lutas de ataque e defesa, correrias e jumpscares. O medo deixa de ser “como sair daqui?” para se tornar “como derrotar aquilo?”.

O problema é que, diferentemente da caverna, cujo enfrentamento permanece coerente até o fim, as regras de combate impostas pelas criaturas são confusas. Ora parecem fáceis de serem derrotadas, ora praticamente invencíveis. Em determinados momentos, as próprias mulheres se transformam em super-heroínas no combate, enquanto, em outros, voltam a serem retratadas de modo completamente fragilizado. Não é a presença do sobrenatural que diminui o impacto do filme, mas o fato de, uma vez que o Mal ganha um rosto, o horror passar a depender de uma lógica de confronto menos consistente do que a geografia opressiva construída até então.
Ainda assim, é impressionante como Marshall cria uma atmosfera e uma geografia únicas sem nunca parar de se mover dentro de seu labirinto. Poucos filmes de horror conseguem transformar o espaço em antagonista com tamanha engenhosidade, fazendo da caverna um organismo vivo que comprime, desorienta e sufoca suas personagens. Mesmo quando apresenta seu Mal, Abismo do Medo permanece um exercício de mise-en-scène admirável, em que cada movimento de câmera, cada fonte de luz e cada decisão espacial seguem servindo ao gênero de maneira profundamente angustiante.