Christopher Nolan é aquele diretor que você ou ama muito, ou tem uma aversão severa. Isso é muito por conta da fama que o diretor ganhou nos últimos anos: a de um pequeno maníaco por realizações técnicas, que na maior parte das vezes, suprimiu o potencial dramático e filosófico que o diretor tanto tenta empregar em suas obras. Muito disso decorre sobre como a mídia, e o próprio diretor, lidam com as notícias relacionadas à produção de suas obras, sempre concedendo uma enorme ênfase em seus feitos técnicos, como as cenas de retrocesso temporal em Tenet, os bombardeiros em Dunkirk ou até mesmo a explosão da bomba atômica em Oppenheimer

Esses detalhes podem até ser impressionantes diante deste ponto de vista, mas Nolan parecia estar mais focado nessas execuções do que na construção de seu filme como uma narrativa filosófica e dramática, algo que ele propõe em todas as suas obras. De maneira impressionante, e até surpreendente, A Odisseia é o filme que mais reforça as qualidades do diretor desde O Cavaleiro das Trevas. Unindo a estética prática – desde a utilização de locações naturais até, como esperado, diversos efeitos práticos ao dar vida aos elementos fantásticos do poema épico de Homero – a um verdadeiro drama intimista relacionado à jornada do protagonista Odisseu (Matt Damon), ao retornar da Guerra de Tróia para sua casa no Reino de ítaca.

Como de costume, Nolan conta muito com uma narrativa fragmentada, não possuindo uma linha concreta dos acontecimentos filmados, sendo isso um dos principais detalhes que constituem a boa escrita dele. Ao longo do filme, Odisseu busca relembrar os acontecimentos conturbados que o levaram até a ilha de Calypso (Charlize Theron), uma ninfa imortal que o mantém preso a ela. Essa estrutura permite utilizar o tempo não apenas para organizar a sucessão dos acontecimentos, mas também transformar sua manipulação na própria linguagem do filme. Dessa forma, o espectador além de acompanhar uma história, experimenta o tempo da mesma maneira que os personagens, e quando falamos de A Odisseia de Homero, o tempo é o principal pilar narrativo.

Além da forma com qual Nolan escolhe narra os acontecimentos do filme, sua estética, curiosamente influenciada por uma visão quase que anti-homérica, buscou rejeitar a grandiosidade visual que muitos épicos peplum possuem, tanto no cinema hollywoodiano clássico como no moderno. A cidade de Tróia, a ilha de Circe e até mesmo o ciclope Polifemo (Bill Irwin), todos eles possuem uma características que vão contra a visão altamente fantástica de um épico mitológico. Tróia parece com uma cidade estado típica da Grécia Antiga, Circe (Samantha Morton) não se assemelha a uma divindade sensual, como no poema original, e Polifemo é uma criatura assustadoramente semelhante a um humano, algo que gera uma estranheza curiosa, traçando assim uma linha bem desenhada entre o extraordinário e o realismo proposto por Nolan.

Todos esses elementos funcionam muito bem à medida em que Nolan não os realiza por algum tipo de fetichização técnica, mas sim para potencializar seu melodrama filosófico. Ele parece que finalmente se desprende de seu ego autoral, dando espaço para a imagem de Odisseu como um herói idealizado pelas histórias de Tróia, desconstruído como um simples homem querendo retornar ao seu lar. Diferente de algumas de suas obras, onde esse intimismo dramático é sempre sobreposto por suas artimanhas visuais, aqui ele finalmente parece de fato entregue às emoções de seu longa, variando entre muitas camadas que vão desde a história de amor quase trágica de Odisseu e Penélope (Anne Hathaway), até elementos de body horror que complementam muito bem o sentimento de aventura proposto.

Ao fim, quando o protagonista finalmente retorna ao seu lar, é momento em que o diretor mais entrega o sentimento épico que A Odisseia deveria ter: um que não se sustenta em imagens grandiosas e acontecimentos monumentais, mas sim na imagem de um herói que se encontra à frente de um sacrifício. O Odisseu de Matt Damon é definitivamente um dos melhores personagens de Christopher Nolan, uma figura heróica que tem seu caráter, como homem, como rei e como guerreiro dissecado em tela. Depois de diversos trabalhos tomados por uma egolatria destrutiva, o diretor inglês realiza algo grandioso, que não depende de apenas técnica, mas de uma profundidade romântica e íntima que te toca profundamente.