Algum tempo antes do lançamento de O Baile dos Bombeiros em 1967, o diretor Miloš Forman estava em uma viagem com os roteiristas com os quais havia trabalhado em Amores de uma Loira (1965), a fim de escrever o roteiro do próximo filme da equipe. Para se distrair, decidem visitar um evento local: uma festa caótica e totalmente disfuncional promovida pelos bombeiros da pequena cidade de Vrchlabí. A experiência foi tão peculiar que fez os cineastas abandonarem seu projeto e focarem em um novo, uma comédia sobre o mencionado baile.
Com as ideias no papel, Forman quis ser o mais autêntico possível. Assim, filmou na própria Vrchlabí e utilizou majoritariamente atores não profissionais. Não satisfeito, inclusive convocou pessoas que estavam na festa real para seu mais novo longa. Após o investimento de um produtor italiano, possibilitou-se a filmagem em cores. Assim nasceu O Baile dos Bombeiros.
O longa conta a história de um batalhão de bombeiros voluntários que, após descobrirem que seu ex-presidente está com câncer, decidem homenageá-lo com um baile em seu aniversário. A festa teria várias atrações: sorteios de diversos itens, um concurso de beleza e, ao final, uma cerimônia de entrega de um pequeno machado decorativo ao ex-presidente. No entanto, as coisas começam a dar errado já na preparação, quando um homem deixa sua escada cair, fica preso a um banner e acidentalmente coloca fogo nele, o que é só o começo de uma série de absurdos que irão percorrer todo o restante da duração, incluindo o sumiço dos prêmios do sorteio, um fracassado concurso de beleza e até um incêndio.

Todavia, até então, deixei uma informação de fora, a qual quem conhece a Nouvelle Vague Tcheca, a história de Miloš Forman ou está familiarizado com o presente filme, irá notar a ausência: o seu status de símbolo de resistência política. Isso porque O Baile dos Bombeiros, apesar de ser essencialmente uma comédia que costumamos chamar por aqui de “besteirol”, tem um subtexto bastante claro de sátira política. Os bombeiros querem organizar ao máximo a festa, tentam prever todos os acontecimentos, têm um procedimento burocrático para cada decisão e buscam evitar ao máximo qualquer desvio. O resultado, porém, é o furto dos prêmios, a sobreposição de interesses sexuais, o caos generalizado e a incapacidade dos organizadores de resolver qualquer problema. Assim, a centralização das decisões e a burocracia exagerada dão lugar a um estado de corrupção total. Se isso lembra algumas acusações ao socialismo do século XX, especialmente na União Soviética, não é por acaso.
Não entrarei no mérito dessa ideia, pois demandaria um esforço analítico sobre o cenário político, social, cultural e econômico que eu não teria condições de fazer, e cujo lugar não é nesta critica. Limito-me a destacar alguns fatos sobre a Tchecoslováquia da época, a fim de partirmos de um lugar comum. Como nação, a Tchecoslováquia existiu entre 1918 e 1992, onde hoje estão a República Tcheca e a Eslováquia. Em 1948, o Partido Comunista do país tomou o poder com o apoio da União Soviética, governando até 1989. Neste período, havia uma visão dominante nos setores socialistas soviéticos consubstanciada no Realismo Socialista, segundo o qual a arte não teria valor em si própria, e seria meramente uma ferramenta política. Tal diretriz resultou em uma padronização das obras artísticas surgidas no bloco socialista e na perseguição de artistas que não se adaptavam a esse paradigma.
A perseguição vitimou Forman logo após o lançamento do presente longa. Apesar de ter tido um lançamento doméstico e um sucesso de público no calor da Primavera de Praga, O Baile dos Bombeiros foi banido em 1968 após a invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética e outros países do Pacto de Varsóvia. Após isso, uma série de fatores forçaram o diretor a sair de seu país, o que o fez começar uma nova etapa na carreira, agora nos Estados Unidos, que se iniciou com Procura Insaciável (1971) e chegou ao auge com Um Estranho no Ninho (1975) e Amadeus (1984).

De fato, a história da produção de O Baile dos Bombeiros, assim como as suas consequências, são fascinantes. Entretanto, isso dá à obra uma aura que a aproxima de um tratado sobre a situação da Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga; uma vez que, sendo o filme que irritou o regime ao ponto de banir Milos Forman, o maior nome da Nouvelle Vague Tcheca, nada mais justo que colocar tal produção como o vetor de uma revolução cinematográfica, em que a arte seria uma espécie importante de resistência. Inegavelmente, isso está presente em O Baile dos Bombeiros, porém é mais em decorrência do contexto extra filme do que do conteúdo dele em si. Por isso, assistir ao longa é um pouco decepcionante: parece que a sua reputação se deu mais por uma reação exagerada do regime em relação ao filme — o que gerou um certo Efeito Streisand quanto a ele — do que pelo seu caráter transgressivo.
Não que a obra de Forman seja ruim. É um filme divertido, engraçado e caótico, atributos que o garantem como uma boa comédia. Entretanto, a alegoria política é vazia e se resume às velhas fórmulas de como o socialismo seria ineficiente, de como a burocracia gera corrupção e de como os membros do Estado seriam promíscuos sexual e patrimonialmente. Como disse anteriormente, não se trata de questionar o mérito da crítica política em si, e sim de uma reflexão acerca da real qualidade de tal crítica. Talvez os apontamentos de Forman estejam corretos, mas a forma como esses apontamentos são posicionados no filme incomoda por não ir além de uma sketch de comédia que se alonga demais.
É uma pena, pois o restante é excelente. Com momentos que beiram a um Projeto X (Nourizadeh, 2012) de bombeiros tchecos (ainda que menos caótico), é hilário ver a incompetência dos organizadores e a bagunça crescente que surge de suas tentativas de organizar o evento. Curiosamente, os atores, majoritariamente não profissionais, são peça central disso. As atuações são extremamente genuínas e autênticas, como se estivessem meramente existindo enquanto pessoas e reagindo às bizarrices, o que demonstra o quão acertada foi a escolha do diretor em convidar pessoas que, não sendo atores, participaram do evento real que deu origem a essa história.

Ao lado disso, mesmo sendo o primeiro filme em cores de Miloš Forman, o cineasta demonstrava ter um domínio incrível sobre a colorimetria e a fotografia. A produção é incrivelmente viva e cativante — fator bastante beneficiado pela restauração que tive a oportunidade de assistir —, algo que vai na contramão do que, falsamente, se diz no grande público acerca dos filmes de movimentos aclamados pelos críticos e cinéfilos. É muito curioso ver uma comédia desse tipo fora do eixo que normalmente investe em filmes semelhantes a este, pelo fato de ser visível o quanto os tchecos têm uma visão diferente de cinema que vai além do enredo, atingindo também a mise en scène completamente, algo que é hipnotizante na Nouvelle Vague Tcheca, e com o cinema de Forman não é diferente.
Assim, O Baile dos Bombeiros pode ser citado como um dos filmes mais importantes da história, porém, na prática, é mais modesto que isso. É uma comédia que encontra em sua despretensão sua maior força, e que é mais interessante quando o pano de fundo político é deixado de lado ou utilizado apenas como um ponto de partida inicial. Portanto, para além da curiosidade histórica, é uma obra divertida e singular, que mostra um lado diferente de Miloš Forman e do cinema da Tchecoslováquia.