A Tchecoslováquia durante os anos 1960 passava por um período de crise financeira e cultural, muito pela intervenção da União Soviética na economia e pela importação dos dogmas socialistas de lá. Havia uma inquietação, especialmente em setores políticos e acadêmicos, para uma abertura econômica e democrática e a diminuição da burocracia e da censura. é nesse clima que surge a Nouvelle Vague Tcheca, com as obras do autor tcheco Franz Kafka sendo grande inspiração por conta de temas como conflitos com figuras de autoridade, impotência perante ao poder, alienação e isolamento, bem como o uso do absurdo para falar de questões da realidade.

Isso tudo culminou na ascensão do reformista Alexander Dubček como líder do partido na chamada Primavera de Praga, em 1968, com a promoção das reformas reclamadas anteriormente sob o slogan “socialismo com rosto humano”. No entanto, a reestruturação foi interrompida com a invasão soviética em agosto do mesmo ano, estabelecendo novamente a rigidez do regime. Com isso, Um Dia, Um Gato, foi um dos filmes criados a partir dessa agitação criativa e de crítica ao governo, mas que se viu vítima da censura posterior.

Como um dos primeiros filmes associados à Nouvelle Vague Tcheca, de 1963, Um Dia, Um Gato, é um longa um pouco peculiar dentro do movimento, por se tratar de uma fábula voltada para um público infanto-juvenil. Ainda tem os temas de críticas ao governo e elementos visuais inovadores presentes nas outras obras que estão neste grupo, porém aqui há lição de moral e a narrativa escolhida usa um contador de histórias, uma trupe circense, uma turma de crianças e um gato mágico.

Os gatos tem uma mística sobrenatural que os envolve, a qual atravessa os séculos. Estão presentes em religiões antigas, folclores e mitologias; um exemplo sendo a deusa egípcia Bastet e os gatos fantasmas do folclore japonês – que já mencionei na edição de abril – e como guardiões companheiros de bruxas e sacerdotisas na cultura popular, algo vindo dos julgamentos de Salém e amplamente adotado na ficção. Em Um Dia, Um Gato, esta tendência mágica felina se apresenta com poderes especiais que revelam a verdade sobre as pessoas que ele enxerga.

Em uma cidadezinha da região da Boêmia, um castelão contador de histórias, Oliva (Jan Werich), apresenta seus habitantes com algumas peculiaridades: como por exemplo a fofoqueira cuidando da vida dos casais, o trabalhador que finge doença para trabalhar menos e a moça que aceita ser amante de um homem casado. Entre as pessoas, está o bondoso professor Robert (Vlastimil Brodský), que acredita que o ensino também pode estimular a imaginação das crianças e bate de frente com o diretor da escola (Jiří Sovák), que quer enquadrar os alunos em normas rígidas e arbitrárias.

Em uma das aulas, Robert chama Olue Oliva narra a vez em que ele estava com uma trupe de circense que tinha um gato de óculos escuros que, se observasse as pessoas, revelaria suas verdadeiras cores: amarelo para traidores, cinza para ladrões, roxo para mentirosos e hipócritas e vermelho para os apaixonados. O felino, porém, foi perseguido e morto por aqueles que não queriam seu lado ruim exposto.

Quando uma trupe circense chega à cidade – cujos integrantes principais são uma bela moça, como também havia descrito Oliva, um mágico que é idêntico ao castelão, e um gato de óculos escuros – a classe de Robert já imagina o que pode acontecer. E, é claro, o caos toma conta do pacato vilarejo quando as cores das pessoas são reveladas pelo felino. Uma curiosidade é que o as cores atribuídas às pessoas foram geradas a partir da pintura à mão os frames do filme.

O professor Robert descobrindo a verdadeira cor de sua namorada

A alegoria é, a princípio, muito simples: revelar as mentiras e a hipocrisia das figuras de autoridade, o que, no caso, pode ser estendido ao governo do país, e, além disso, também exalta a inocência, bondade e criatividade das crianças e dos artistas. Robert é um exemplo do cidadão passivo, mas de bom coração, Oliva é o subversivo agitador, que faz isso por baixo dos panos, e a trupe circense são aqueles que vivem à margem, e por isso livres da rigidez do regime. Os alunos são os agentes de protestos e a esperança de mudança, fazendo isso por meio de cartazes e pichações com imagens de gatos, além de fugirem para a floresta para salvar o gato mágico (que aqui representa a verdade).

A diferença é o tom leve e lúdico, com uma pitada de sarcasmo, mas com a moral e as virtudes muito claras que podem ser compreendidas facilmente. O uso da mágica, do gato de óculos e principalmente da divisão de cores para ilustrar características e sentimentos são elementos visuais que ajudam na assimilação da mensagem. Desse modo, é uma narrativa bem didática e agradável para um público abrangente; ao mesmo tempo em que incita pensamento crítico e mudanças. Ou seja, algo perigosíssimo para os ideais do partido.

Ainda assim, o filme chegou a ganhar prêmio do júri em Cannes, em 1963, e foi resgatado após o fim da Tchecoslováquia, tornando-se um clássico cult representativo do movimento. Também ganhou restauração em 2021, sendo reexibido no festival francês. É um exemplo do quão rico e diverso foi este período do cinema do país e um belo filme (com um gato fofinho).