Os “doramas” — termo usado inicialmente para séries televisivas japonesas de drama, mas que, de forma imprecisa, foi expandido para os dramas do leste asiático — nunca me atraíram muito. Sempre houve aquela curiosidade de saber como eram tais obras, porém nunca a ponto de assistir a elas. Por isso, A Menina dos Meus Olhos foi minha primeira experiência com os k-dramas (termo mais apropriado), e fui positivamente surpreendido.
No filme, acompanhamos um grupo de amigos em que todos os garotos são apaixonados pela mesma menina: Sun-ah (Kim Da-hyun); exceto Jin-woo (Jung Jin-young), justamente aquele que é escolhido para sentar perto dela na sala de aula, a fim de melhorar suas notas — o que faz os dois, lentamente, se apaixonarem.
Nesse mundo decadente em que vivemos, é plenamente compreensível que filmes como esse existam. É uma projeção do que desejamos: um mundo idealizado, limpo, bonito, em que somente nossas escolhas definem nosso futuro. Não falo isso em tom de demérito; essas projeções, muitas vezes, são o que mantêm a nossa sanidade. De vez em quando, precisamos dessa beleza alicerçada em romances idealizados e em composições de plano extremamente iluminadas, para lembrar como a arte não é a realidade. Obviamente, esse higienismo cria um duplo de exclusão social relatado por obras como Parasita (Joon-Ho, 2019); todavia, acredito que entrar nesse mérito ultrapassa o escopo de A Menina dos Meus Olhos.
Com esse propósito escapista, o longa de Cho Young-myoung é eficaz, divertido e emocionante. Aquilo que mais o prejudica é como o lado mais “mágico” do romance fica corrido e tira um pouco da potência dos sentimentos. No geral, acredito que essa história funcionaria melhor em uma minissérie, o que permitiria desenvolver com mais atenção o romance, as amizades e as próprias características dos personagens, dando mais impacto aos trechos mais relevantes — cujas emoções, normalmente, se limitam à trilha sonora e às atuações.
Felizmente, o elenco está ótimo, com destaque para Kim Dahyun, que foi o principal marketing do filme, visto que ela é uma das integrantes do grupo feminino Twice — um dos maiores do k-pop — e este longa marca sua estreia na atuação. Entretanto, Dahyun vai bem além de emprestar seu rosto à propaganda, construindo, com competência, uma personagem líder de sala que precisa esconder suas inseguranças e sentimentos para suprir as expectativas acadêmicas. O mesmo pode ser dito de Jung Jin-young, que interpreta um garoto confuso e muito cativante de acompanhar.
Enfim, A Menina dos Meus Olhos poderia ser uma minissérie. Mas, como não é, restou esse filme divertido, leve e despretensioso, que pode agradar tanto àqueles familiarizados com os dramas coreanos quanto àqueles que, como eu, têm pouco contato com esse mundo.