No novo filme do Monsterverse finalmente temos mais monstros que papinho furado. Adam Wingard até parece um pouco mais livre do que no filme anterior e consegue estilizar bem mais a imagem com as luzes e o neon, ao mesmo tempo em que cria algumas lutas interessantes. Ainda assim, a base do filme parece muito engessada na fórmula padronizada dos filmes do Monsterverse. O diretor parece ainda não ter muito espaço para ir além, mas, mesmo assim, o resultado é um filme com bons momentos, poucos humanos e muitos monstros — para a alegria do cidadão comum.

Em Godzilla vs Kong (2021), Wingard até conseguiu criar alguns bons momentos também, apesar de perder muito tempo com o arco humano, que é, historicamente nesses filmes, fraquíssimo, e acaba atrapalhando bastante o foco do filme. Wingard é um diretor com uma fascinação pelo visual e por uma construção grandiosa, livre dos acontecimentos dos seus filmes — seja trabalhando o terror (Você é o Próximo), seja com o thriller e o melodrama (Death Note) seja com a ação de dois (ou mais) monstros saindo no soco.

Ainda bem que em Godzilla e Kong (2023) o diretor minimiza completamente o tal arco humano, que ainda está lá, mas funciona por ser apenas um ou dois degraus da experiência que Wingard tenta construir aqui. Eu realmente não imaginava ver tantos minutos de filme sem diálogos — ou ao menos sem falas. Acompanhamos vários momentos do Kong explorando novos ambientes da Terra Oca, interagindo com outros monstros/animais e, claro, lutando umas quantas vezes. Algumas aparições parecem totalmente ideias de estúdio para vender boneco (o próprio mini Kong, que é um fofo), seguindo o modelo dessas grandes franquias que tomaram conta do cinema blockbuster desde 2008, com Homem de Ferro.

As sequências de luta, por menos inventivas que sejam em vários momentos, sempre impactam pela grandiosidade da construção do mundo e das demonstrações de poder dos monstros, que Wingard encena sem medo: Godzilla ficando todo roxo de tanto absorver energia, a luva do Kong e outros diversos artifícios que visualmente são bem expressivos, ajudando na dinâmica da ação do filme.

Wingard já trabalhou com o brega em alguns outros momentos de sua filmografia, sendo talvez o ápice disso Death Note: a sátira do jovem incel moderno, em que o diretor parte desse brega (no uso da trilha sonora e na maneira como dirige os atores) pra construir seu thriller que, mesmo sendo odiado por muitos, pra mim é um dos melhores filmes daquele ano.

O brega em Godzilla e Kong, assim como em Death Note , também parte da trilha sonora, com algumas músicas que tocam em momentos isolados; e também está em como alguns personagens se comportam, fugindo de um ideal realista de atuação e encenação.

Outro aspecto interessante de unidade estilística de Wingard é em como ele faz a ação parecer um video game em diversos momentos. Vários combates do Kong, por exemplo, parecem um jogo do estilo hack-n-slash, e é como se o estivéssemos controlando, avançando pelos cenários, até alcançar então o inimigo final. Há também o uso de câmera lenta, que muitas vezes lembra os clássicos quick time events de um God Of War II (2007).

No geral o diretor cria  uma experiência muito dinâmica e corporal, com alguns toques bem líricos no uso das cores e do CGI, mas que não vai pra muito longe do lugar comum dos outros filmes da franquia — muito provavelmente pelas, já mencionadas, limitações impostas pelo estúdio em cima do talentoso Adam Wingard. Ainda assim gostei bastante do filme e acho uma ótima experiência para se ter na telona!