Folhas de Outono, de Aki Kaurismãki, é um filme de romance que, em apenas 80 minutos, entrega uma abordagem formal muito bem definida e apresenta dois personagens complexos que desenvolvem uma relação de amor muito expressiva. O timing de diálogos só não é tão bom quanto o timing do silêncio, que remete muito ao cinema de Robert Bresson. Mesmo sendo meu primeiro filme do diretor, consigo facilmente perceber algumas semelhanças, principalmente na forma como ele dirige os atores: em como eles se expressam, falam, agem, se movimentam e atuam naquele mundo que, em uma conduta super realista do filme, se adequa quase inteiramente ao nosso.

O filme aborda tematicamente um romance entre dois trabalhadores precarizados da Finlândia, Ansa e Holappa. Kaurismãki aborda esse amor de forma bem intimista, focando nos gestos, olhares e palavras ditas por cada um deles. Ansa é funcionária de um mercado em que pode ser demitida sem justa causa a qualquer momento, Holappa é empregado em um trabalho pesado e vive o alcoolismo, que pode ser resultado do stress da guerra e das condições laborais precárias. Sendo um personagem bem mais “absolutista” que Ansa, Holappa toma algumas decisões de forma mais compulsiva, sendo uma das principais a de deixar o vício pelo futuro do seu relacionamento. A protagonista, bem menos inconsequente e bem mais decidida, ainda que seja tímida e com um medo natural de se relacionar – principalmente se entrarmos na idade de ambos os personagens – acaba sendo sempre quem toma as maiores decisões, desde passar o número de telefone a convidá-lo para jantar em sua casa.

Dia 24 de fevereiro de 2022 iniciou o que hoje é conhecido como Invasão da Ucrânia pela Rússia, o conflito armado que tomou conta do debate geopolítico no mundo todo há quase 2 anos. Esse é o background mais expressivo na história: em diversos momentos de monotonia no dia a dia desses dois trabalhadores, o conflito entre os países vizinhos é destacado, principalmente pelo rádio de Ansa e pelo pessimismo bressoniano que a frieza dos personagens exala. A guerra parece ser motor para o trabalho precarizado de ambos os personagens, sendo esse um dos principais motivos do filme girar em torno dos encontros e desencontros do casal protagonista que se conhece em um bar de karaokê.

A partir desse momento, eles se reencontram e o filme inicia nessa lógica bem humorada – por mais que formalmente apática – de encontros e desencontros entre os personagens. Um dos momentos mais marcantes da obra é a sequência em que eles vão para o cinema e Kaurismãki mostra os dois assistindo ao filme, bem sérios. Quando acaba, Holappa pergunta “Gostou do filme?” e ela responde “Sim, nunca ri tanto.”. É um humor que encaixa perfeitamente com esse vazio da encenação. A comicidade e as cores preenchem brilhantemente esse espaço de amor à flor da pele, recomeço e resistência.

Folhas de Outono é um filme que carrega uma apatia e uma desilusão com a realidade material da guerra e dos trabalhadores de forma muito bem definida e estruturada. Além disso, é um filme maduro o suficiente para conciliar a frieza com esse tom mais lírico e humorado que a relação dos dois protagonistas cria no mundo a volta deles. Um dos filmes mais importantes de 2023 e com certeza uma obra-prima contemporânea!