House (1977) é um filme que trabalha a auto afirmação do plano atuando na instrução consciente do espectador, que concilia essa abordagem com uma temática extremamente profunda de trauma e luto. Nobuhiko Obayashi trabalha essa consciência a partir de uma didática formal muito própria. House é um filme de terror experimental que concilia uma encenação formalmente muito onírica com um maneirismo extremamente dinâmico que conecta visualmente todas as sequências do filme com um senso de humor que parte do absurdo cômico.

Gorgeous vai para a casa (que dá nome ao filme) de uma tia que mal conhece e para não ficar entediada leva suas melhores amigas com ela. A casa é assombrada e a tia da protagonista não é realmente quem ela diz ser. A encenação do filme coloca essas personagens em um espaço extremamente caótico que se reinventa e se reorganiza conforme as meninas vão presenciando diversas aparições teatralmente muito surrealistas e inventivas. O “absurdismo” desse espaço está principalmente na frontalidade das ameaças que afrontam as protagonistas: um piano assassino, um gato com poderes, uma geladeira que “engole” as pessoas, uma cabeça zumbificada, um esqueleto dançarino…

O filme soa como se fossem diversas esquetes experimentais separadas, mas a dinâmica da encenação é tão didática que tudo flui visualmente de forma muito consistente. Semelhantemente a “câmera mira”¹ de Hitchcock, Nobuhiko Obayashi expõe uma unidade estilística extremamente consciente, onde o plano se auto afirma e consegue guiar o nosso olhar com alguns raccords muito didáticos. Soa como se o filme estivesse nos convidando a aceitar aquela dinâmica doida a partir de uma espécie de “introdução”. As sequências se afirmam e se apresentam diretamente para o espectador com uma espontaneidade e autoestima inspiradoras.

Na base, House é um melodrama coming of age sobre luto e trauma que concilia isso com essas “esquetes” que negam completamente qualquer senso de realidade e trazem essa tom de absurdo cômico com muita sensibilidade. Todas funcionam sozinhas por si, mas são ligadas por uma cosmologia autoconsciente que instrui o espectador “como assistir” aquela obra, para onde olhar e o que esperar.

Em uma das sequências do filme essa autoconsciência me lembrou automaticamente Persona (1966), onde o “rolo do filme” se queima na tela, visualmente se assumindo como ficção e negando qualquer sutileza formal quanto a “se manter por baixo dos panos”. Em outro momento vemos uma cena em que uma das meninas imagina ela com seu pretendente e o filme anuncia “THE END” na tela com uma fonte vermelha e piscante, encenando didaticamente o que seria uma espécie de “final feliz” para ela. Esse senso didático da obra equilibra todas as atrocidades (no bom sentido) que o filme fará consigo mesmo e torna essa experiência uma das mais estimulantes de todo o cinema de terror.