É muito triste que o brasileiro não conheça o próprio cinema, sempre citando os mesmos filmes que vão de Pixote (1980), passando por Central do Brasil (1998) até chegar em Tropa de Elite (2007) e a trilogia Minha Mãe é Uma Peça (2013-2019), sempre filmes da retomada para cá. Com isso, não quero dizer que esses filmes são ruins ou não mereçam reconhecimento, muito pelo contrário. O cinema brasileiro é um dos mais ricos do mundo e teve seu provável ápice entre os anos 1950-1980. Dá para listar Chanchadas > Cinema Novo > Cinema Marginal > Pornochanchadas, além de vários outros filmes que não entram nessas categorias e organizar como o ‘Ouro’ do cinema nacional, seja em qualidade, seja em público brasileiro consumindo seus próprios filmes no Cinema.
Dito tudo isso, Central do Brasil é meu novo filme preferido da Retomada. Um período do qual existem algumas polêmicas, é muito comentado uma espécie de domesticação do cinema brasileiro perante ao mercado americano, com obras que dialogam, sim, sobre o Brasil, mas que tem interesse em mostrar o país de dentro para fora e sem os aspectos estilísticos genuinamente brasileiros tão marcantes do nosso cinema moderno. Seguindo essa lógica, são filmes que tem o interesse comercial de empolgar os gringos com obras mais palatáveis, dramas mais comuns e abordagens “americanizadas”, muito por conta de assumir um naturalismo estético muito comum no cinema americano desde os anos 1910 com as obras de D. W. Griffith.
Isso, não à toa, teve um objetivo e gerou alguns frutos, tais como a indicação ao Oscar de Melhor Atriz para a Fernanda Montenegro pelo seu incrível papel aqui e também a campanha de Cidade de Deus no Oscar de 2003. Foram filmes que tiveram um reconhecimento internacional de grande prestígio, mas são criticados até hoje por formularem suas obras com o intuito de chamar a atenção do público internacional maquiando a realidade brasileira, tornando palatável para o espectador estadunidense e resultando em algumas ideias bem interessantes e marcantes para a história do cinema brasileiro contemporâneo, como a Cosmética da Fome. Ao abordar a vida de Dora, uma professora aposentada do Rio de Janeiro que escreve cartas para analfabetos na estação de trem, Walter Salles constrói a grande jornada da protagonista ao tentar levar Josué ao encontro de seu pai.
Formalmente o filme segue uma abordagem bem clássica, sem muitas inventividades, mas que tira muito poder do local em que se passa: o Brasil. É uma viagem longa em que Dora e Josué vão de encontro a muitas pessoas, lugares e eventos. Um dos momentos mais fortes do filme é quando os dois estão brigando, andando na contramão de uma procissão. Dora, angustiada por ter perdido dinheiro e se metido em diversos contra-tempos nessa viagem, desconta no menino todas as angústias que sente e ele foge. Ela vai atrás dele, mas a multidão é tão grande, cantando e rezando, que ela tem dificuldades de encontrar o menino e desmaia. Salles tem um cuidado e um olhar muito específico ao decupar essa cena, que mostra muito da diversidade cultural do país em meio a um dos ápices dramáticos do filme com um olhar muito sensível e poderoso.
Muito interessante como a personagem entra em vários dilemas e em diversos momentos ela pensa em desistir de acompanhar o menino e praticamente o faz. No final, quando a jornada se completa e ela realmente vai embora sem dar adeus, só deixando um bilhete. A cena em que Salles alterna entre Dora e Josué olhando as fotos dos dois juntos enquanto a carta de Dora é narrada se torna, de fato, um dos momentos mais emocionantes do cinema brasileiro contemporâneo. Um show de melodrama que atinge seu ponto máximo pela forma como o diretor tem um controle super rígido da sua decupagem e tem toda a sensibilidade necessária para conduzir esse road movie e coming of age classudo, emocionante e, como discutido mais acima, extremamente importante para o contexto do cinema da Retomada. Um grande filme que por muitas vezes é subvalorizado com argumentos bem mais extra filme sobre o diretor do que sobre a maneira que ele articula a linguagem especificamente nessa obra. Essencial e encantador.