Mais um dia, mais um filme do “traumaverso”. De O Babadook (Kent, 2014), passamos por Hereditário (Aster, 2018), por Midsommar (Aster, 2019), por Sorria (Finn, 2022) e por tantos outros dentre os quais poucos se salvam, até enfim chegarmos a Fale Comigo. Contudo, essa tendência é apenas uma faceta da abordagem dramática do terror que existe desde que o cinema é cinema — lembro, por exemplo, de A Carruagem Fantasma (Sjöström, 1921) —, sendo que o único diferencial dessa nova leva é que ela furou a bolha cinéfila e atingiu o grande público. O problema é que junto dessa popularização há uma percepção por parte dos produtores de que a encenação deve ficar em segundo plano, priorizando a metáfora. Isso acontece com Fale Comigo? Sim e não.

Aqui, acompanhamos Mia (Sophie Wilde), que perdeu a mãe em um contexto bastante difícil, o que a fez se afastar de seu pai e estreitar as relações com a sua amiga Jade (Alexandra Jensen) e com Riley (Joe Bird), irmão de Jade. Porém, tudo muda quando os três vão a uma festa na qual um dos convidados apresenta uma mão. Esse objeto possibilita, a quem quiser, uma conexão com o sobrenatural, fazendo com que um deles vá longe demais e liberte forças do mal que irão atormentar os protagonistas.

Definitivamente, não é um dos piores exemplos do “traumaverso”. Primeiramente, por usar, por grande parte da duração, os traumas da protagonista somente como motivação inicial aos trechos de terror, vários deles bastante criativos e assustadores. Em segundo lugar, pela genuinidade dos atores e da narrativa em conectar as características pessoais dos personagens com as ideias tortas deles em relação à mão. A criatividade das cenas com a mão e da conexão das pessoas com os espíritos é, aliás, o ponto alto da obra, quando ele vai para o lado mais próprio do gênero terror.

No entanto, apesar de eu ter conseguido me relacionar aos personagens e seus traumas, acho que o filme fica bem pobre quando busca a metáfora — aspecto que cresce ao longo de sua duração. Quando o enfoque da narrativa muda para os protagonistas tentando lidar com um dos jovens especialmente afetado pelas ações dos outros, vira tudo uma sequência de clichês vazios e de uma tentativa barata de metáfora a todo custo, lembrando os piores trechos de Hereditário (Aster, 2018) — ainda que menos apelativo e superficial do que o longa de Ari Aster.

Talvez tenha sido erro da minha parte ver Fale Comigo apenas alguns dias depois do ótimo Sorria 2 (Finn, 2024), mas achei uma pena ele se render à encenação pobre desse “novo terror” em vez de se utilizar disso para criar uma abordagem própria. É uma sensação de potencial parcialmente perdido, que foi se esvaindo e ficando mais tedioso a cada minuto que passava. Repito, não é uma das piores obras do “traumaverso”, mas é um filme pouco memorável em que, ao final, mais uma vez o terror fica submetido a dramas e dilemas superficiais.