No texto Cuspindo em Hegel, da ativista italiana Carla Lonzi, há uma longa análise sobre como formas de pensamento e de governo aparentemente progressistas e revolucionárias são incapazes de libertar as mulheres da opressão e da desigualdade de gênero. A autora afirma que correntes como o pensamento liberal, o marxista e várias outras são capazes de compreender o capitalismo, mas não o patriarcado, que constitui um modelo de dominação anterior ao próprio Estado. Para desenvolver essa discussão, Lonzi parte do pensamento hegeliano, um dos mais influentes da filosofia ocidental, que ajudou a moldar filósofos como Karl Marx, no materialismo histórico, e Max Stirner, que levou as críticas ao Estado a níveis anarquistas.
Carla Lonzi escreve que a dialética hegeliana do senhor-escravo não emancipa as mulheres, pois, se o escravo se reconhece por meio do conflito histórico, isso significa destacar-se dentro das categorias já impostas pela sociedade. No caso das mulheres, porém, esse processo é contraproducente, pois a busca pela emancipação dentro de categorias já existentes apenas perpetua as mesmas estruturas de dominação ao adaptar-se a elas. Além disso, essas perspectivas ignoram o fato de que a opressão das mulheres não se limita a política e economia, descartando-as como sujeitos reconhecidos na história.
No meio audiovisual, Born in Flames segue esse mesmo objetivo crítico ao optar por um caminho diferente do que se poderia esperar de filmes políticos. Nesse caso, a “revolução” já está instaurada, na forma de uma distopia em que os Estados Unidos, por meio de uma revolução pacífica, tornam-se um país governado por um regime socialista. No entanto, as discriminações de raça, classe e gênero continuam sendo fortes ferramentas do governo, ainda que de maneira velada, pelo menos dentro da distopia apresentada. Para o espectador, entretanto, essas opressões são expostas de forma direta, principalmente por meio da abordagem semidocumental do filme, que apresenta mulheres denunciando as profundas desigualdades estruturais às quais estão submetidas em programas de rádio e em cenas do cotidiano que evidenciam esse tipo de opressão.
Isso vai muito na direção de expor um certo senso comum em relação aos pensamentos radicais de luta popular por uma sociedade igualitária, que é fortalecido por correntes de pensamento limitadas na forma de explicar essa questão. Afinal, “nem todo mundo é igual”. Mas, nesse caso, trata-se de revisar esses mesmos conceitos para pensar como não é possível existir igualdade enquanto houver qualquer forma de dominação.
Pensando nas questões de gênero, Carla vai dizer que a ideia de igualdade para as mulheres está ligada à lógica de que, se elas possuem tanta habilidade e competência quanto os homens, ganham um destaque considerável e relevante na sociedade. No entanto, esse pensamento vai caindo por terra a partir do momento em que se percebe como as vivências das mulheres influenciam a construção de pensamentos que rompem com esse senso comum patriarcal. Assim, deixa de ser uma questão de possuir tanto poder quanto os homens e passa a ser um questionamento da própria ideia de poder em geral que, historicamente, segue sempre uma lógica masculina — o que faz questionar até a ideia de igualdade pois, segundo ela: “O mundo da igualdade é o mundo da opressão legalizada e da unidimensionalidade. No mundo da diferença, o terrorismo abandona suas armas e a opressão cede à variedade e multiplicidade da vida. A igualdade entre os sexos é apenas a máscara com a qual a inferioridade da mulher é disfarçada.”
O filme vai na direção de valorizar essa pluralidade das mulheres, dando enfoque a mulheres brancas, negras, homossexuais etc., mostrando como todas são afetadas por essas desigualdades veladas de maneira bastante direta, como no aumento do desemprego e das demissões entre mulheres, além das denúncias desses abusos de poder. E não apenas focando na militância desses grupos feministas, mas também na dimensão existencial e sexual das mulheres enquanto sujeitos, um aspecto em que elas são oprimidas e que é frequentemente ignorado pelos revolucionários. Há uma forte valorização visual dessa busca por autonomia diante dos padrões de gênero e de como cada uma busca sobreviver e reagir à moral vigente.
Esse tipo de moralismo conservador de governos socialistas já existia desde a Revolução Russa, quando Vladimir Lenin trocou cartas com Clara Zetkin e Inessa Armand criticando conceitos de “amor livre” e o que julgava ser uma obsessão por discussões sobre sexo e casamento em círculos partidários e entre a juventude. Ele considerava essas ideias uma expressão da moral burguesa e entendia que desviavam o foco das prioridades revolucionárias do proletariado para atender a supostas reformulações desviantes e individualistas da vida afetiva. Trata-se de algo bastante comum na esquerda radical: uma visão abstrata e idealizada da classe trabalhadora, que acaba absorvendo preconceitos e limitações basilares desse pensamento.
Para citar dois exemplos práticos disso no Brasil, temos o caso de Herbert Daniel que, durante a ditadura militar, participou da luta armada, mas precisou esconder sua homossexualidade para ser aceito na militância, já que organizações marxistas-leninistas eram homofóbicas e julgavam a homossexualidade como uma degeneração burguesa. Posteriormente, passou a abandonar esses dogmatismos e a viver sua sexualidade de forma mais livre em Portugal, durante a Revolução dos Cravos, a partir do contato com feministas e socialistas.
O segundo exemplo é bem mais recente: o do ativista Paulo Galo que, em um programa de podcast, questionou por que trabalhadores — no caso dele, entregadores de aplicativo — deveriam apoiar a luta dos LGBTs, já que isso não lhes dizia respeito. Esse posicionamento retoma a ideia de classe trabalhadora como uma identidade fixa e abstrata, que alimentou a ideologia de governos como a União Soviética e direcionou o caminho para concepções conservadoras, nas quais questões envolvendo opressões de gênero e minorias sexuais são colocadas em segundo plano ou tratadas como distração. Com isso, deixa-se de perceber que a mesma exploração e dominação que afeta um motoboy como Galo também atinge mulheres e pessoas LGBT+, que igualmente vivenciam essas dificuldades, mesmo que de jeitos e intensidades diferentes.
Born in Flames, em resposta a todas essas hipocrisias, traz à tona a luta daqueles que participaram de lutas populares e quando, aparentemente, a vitória foi conquistada, foram deixados de lado devido à continuação das práticas de hierarquia social que fortalecem e ampliam as desigualdades e mostram como a verdadeira revolução está na rejeição da noção de igualdade construída pelo patriarcado e na ação direta que traz à tona esses retrospectos e os subverte a partir de objetivos realmente radicais e transformadores.
BOUSCHELJONG, Peter. Carla Lonzi | Let’s Spit on Hegel. BLACKOUT (Literatur, Ästhetik & Film), 18 nov. 2020. Disponível em:https://my-blackout.com/2020/11/18/carla-lonzi-lets-spit-on-hegel/