Parece contraditório dizer isso sobre um filme de terror chamado Bonecas Macabras, mas o elemento mais bem construído não são os bonecos que irão ser os vilões (ou heróis contra os adultos, dependendo do ponto de vista), e sim a ambientação em que se passa a “noite mais longa do mundo”, que é o recorte temporal narrativo. O que há de uma boa mise-en-scène de Stuart Gordon está na ambientação geográfica daquele espaço caseiro, no uso da iluminação interna de velas, das sombras e também do aspecto extracampo do temporal invadindo os ambientes através dos relâmpagos e do barulho e chuva. O diretor entende muito bem como transformar o casarão isolado num espaço de ameaça permanente, e existe uma atmosfera bastante eficiente construída a partir da relação entre arquitetura, luz e clima.
O problema é que toda essa preparação do espaço não encontra equivalente na preparação dos próprios bonecos. Enquanto o filme gasta tempo demais apresentando os arquétipos de personagens que serão caçados, há pouca elaboração na construção do “pré”-terror, explorando pouco uma dualidade temporal entre os bonecos inocentes que depois serão transformados em signos do maligno. Parece detalhe, mas é justamente aí que o roteiro parece pular etapas fundamentais daquilo que é preciso para realmente assombrar.
Ver o objeto já pervertido dentro das set-pieces de terror faz com que o filme se aproxime mais de uma versão de várias versões de Chucky dentro de um exercício de haunted mansion do que de uma genuína construção do horror pela própria presença daqueles objetos ainda inanimados ocupando a casa antes de realizarem qualquer ação de fato. Falta observar esses bonecos simplesmente existindo naquele espaço, contaminando gradualmente o ambiente e o olhar do espectador.

Isso se torna ainda mais curioso porque o próprio filme oferece uma estrutura dramática que parece pedir exatamente esse tipo de construção. Para um longa que tem como personagem central uma figura de inocência cercada por adultos pervertidos pela maldade que não acreditam nela, além de um adulto infantilizado que compartilha parcialmente deste mesmo olhar, falta justamente embarcar nesta transformação gradual do irreal em real. O terror não deveria surgir apenas quando os bonecos começam a agir, mas também no processo em que aquilo que parecia fruto da imaginação passa lentamente a adquirir materialidade diante dos personagens e do espectador.
Faltam até mesmo alguns artifícios relativamente básicos. Efeitos Kuleshov nos rostos planificados dos bonecos, uma mescla de blocagem com profundidade de campo mostrando sua presença onipresente ao fundo dos enquadramentos ou simplesmente uma exploração maior da convivência com aqueles objetos antes da violência. Stuart Gordon parece muito mais interessado na consequência do horror do que na sua construção, como se o filme estivesse sempre ansioso para chegar ao momento em que os bonecos atacam.
Neste sentido, Bonecas Macabras acaba entrando mais na esfera da aventura que diverte em seu banho de sangue do que do filme que assombra nas vísceras. O diretor filma muito bem quando o horror já aconteceu, mas dedica pouco tempo à transformação gradual que faz um objeto banal deixar de ser apenas um brinquedo e se tornar uma presença verdadeiramente perturbadora. Talvez por isso suas melhores ideias estejam ligadas ao espaço da casa e à atmosfera da noite, enquanto seus bonecos acabam funcionando mais como mecanismos de ataque do que como verdadeiros objetos de assombração.