Se você morresse hoje e te pedissem para escolher uma memória para reviver antes de fazer a sua passagem a outro plano — e que vai ser a única da qual se lembrará pela eternidade —, qual memória escolheria? Seria um momento da sua infância? Um último encontro com seu cônjuge? Alguns minutos nos quais sentiu uma emoção única? Ou, talvez, você sequer escolheria? São essas perguntas que Hirokazu Kore-eda dirige indiretamente ao espectador em Depois da Vida. No filme, acompanhamos um grupo encarregado de uma tarefa: durante três dias, eles precisam entrevistar pessoas recém-falecidas, a fim de que estas escolham uma memória de toda sua vida para que, ao final, o grupo faça um filme sobre cada recordação.

É uma proposta criativa e, ao mesmo tempo, devastadora. A escolha de Kore-eda aqui é muito próxima do cinema documental, com câmeras posicionadas na frente dos personagens, uma trilha sonora quase ausente e um ritmo bastante cadenciado. Por boa parte da obra, acompanhamos indivíduos relatando simples fatos de suas vidas e vemos as particularidades de cada um deles. Desde o jovem que se recusa a escolher até uma idosa que busca reviver a infância, lentamente vamos nos envolvendo com essas histórias tão comuns.

Esse reencontro das pessoas com seus passados lembra, de certa forma, Morangos Silvestres de Ingmar Bergman (1957), por serem duas obras que abordam o esvair do tempo. Contudo, Depois da Vida o trata de maneira mais esperançosa do que Bergman — ainda que Morangos Silvestres não seja o mais fatalista do diretor nesse tema —, isso porque Kore-eda não se deixa seduzir pela nostalgia. Pelo contrário, o filme é inundado por um saudosismo saudável, demonstrando como mesmo as pessoas cujas vidas foram as mais frias e deprimentes ainda podem ter tido um momento de felicidade. Ademais, nos mostra que sempre podemos não só encontrar esse momento como criá-lo; afinal, diferente desses personagens, estamos vivos.

Assim, a mistura do universo temático de Bergman com o estilo minimalista de Yasujiro Ozu acaba gerando uma visão muito única. É o cinema propondo um olhar duplo: ao mesmo tempo que o espectador fica imerso naquele mundo, a paciência com que tudo acontece torna o filme um espelho. O diretor não está só interessado em seus personagens, ele está interessado em dar um ponto de partida para cada um de nós revisitarmos nossa própria vida e pensarmos sobre o tempo que tivemos, temos e o que ainda nos resta.

Quando menos percebi, estava em lágrimas assistindo Depois da Vida. Não sei qual memória escolheria, contudo certamente saí uma pessoa diferente depois dessas duas horas. É um longa lindíssimo, cujas escolhas dão espaço para olharmos para nosso interior, vermos aquelas memórias que nos compõem e sentirmos de novo aqueles momentos que nos lembram que é bom estar vivo. Quando menos percebo, estou novamente em lágrimas escrevendo esse texto. Obrigado Mestre Kore-eda!