O terceiro filme do universo cinematográfico baseado nos personagens da DC Comics e chefiado por James Gunn (agora fora da direção) continua a saga de criar uma uma identidade que separe a marca da Marvel. Entretanto, nessa tentativa de se distanciar da concorrente, parece que a alternativa é se aproximar de outras franquias como Star Wars ou Mad Max, e é o caso deste Supergirl.
Inspirado na série em quadrinhos Supergirl: Mulher do Amanhã, publicada de 2021 a 2022, o filme usa essa história como o esqueleto da trama, acrescentando personagens e situações para deixar a narrativa mais leve e pitoresca, além de estabelecer as conexões com o universo expandido — especialmente quando cria uma relação familiar de amizade entre Clark e Kara.
Outra inspiração, agora de ambas as obras, é o clássico Bravura Indômita (Hathaway, 1969). Em Supergirl, a premissa também parte de uma jovem, Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), que precisa de ajuda para vingar o assassinato da família e consegue com uma bêbada e relutante, Kara Zor-El (Milly Alcock). As duas, então, têm que desbravar a galáxia em uma espécie de road movie, para encontrar o vilão Krem of the Yellow Hills (Matthias Schoenaerts) que, além de ter matado os entes queridos de Ruthye, possui o antídoto usado para salvar o cãozinho Krypto do envenenamento.
Dessa forma, o filme bebe de diversas fontes sem criar uma unidade distinta o suficiente para se destacar narrativamente ou visualmente. O roteiro inspirado em faroeste também remete à saga Star Wars, pelas tavernas com mercenários alienígenas mal encarados e os planetas desérticos. Ademais, tem uma subtrama derivada da saga Mad Max, que envolve gangue de motoqueiros com roupas de couro espalhafatosas e noivas raptadas e vestidas de branco. Por fim, há as músicas pop encaixadas em momentos inusitados e o animalzinho em perigo, como nos filmes de Guardiões da Galáxia. Isso para citar algumas referências óbvias do longa.
Ao lembrar outras obras melhores e mais divertidas, Supergirl acaba se tornando um filme muito derivativo e, por isso, cansativo em alguns momentos, especialmente nas cenas de ação — sendo o segmento do clímax o mais emblemático nesse sentido por usar um cover compassado de música pop (horroroso) e uma câmera lenta que, ao invés de ajudar na compreensão da sequência de movimentos só atrapalha e deixa tudo feio, pouco dinâmico e bagunçado.
Apesar disso, o longa ainda consegue aproveitar alguns momentos para acrescentar ideias um tanto mais originais — como tudo o que se passa enquanto elas estão no ônibus, que envolve a dinâmica dos motoristas e também de um grupo invasor. No entanto, o grande destaque vai mesmo para a Milly Alcock; com a ajuda do belo trabalho de maquiagem e figurino, que cria uma heroína com o cabelo desgrenhado, cara lavada (ou nem tanto), quase sempre usando roupa larga e casual, a atriz constrói uma Kara, engraçada, ao mesmo tempo que depressiva, e cheia de sentimentos que nem precisavam ser externados em um flashback.
Certamente que isso é um grande diferencial que se vê pouco em franquias e filmes de super-herói (penso em Carol Danvers e Yelena Belova) e não feito de uma forma realmente complexa, que parece uma personagem real e multidimensional, e que tem desprendimento suficiente para ser falha e contraditória. Além de ter o lado sensível de alguém que talvez tenha empatia até demais.
Por outro lado, é uma pena que ela esteja em uma narrativa tão desordenada. O Lobo (Jason Momoa), personagem que parece que foi acrescentado à trama apenas como easter egg para quem acompanha notícias de bastidores da DC, por exemplo, é introduzido após uma briga generalizada que mal se entende o que está acontecendo e que não faz sentido algum ele ter estado lá durante esse tempo. Em outro momento, Ruthye e Kara tem que fugir de um planeta, Supergirl descola um transporte e chama a menina, porém, quando chegam no outro lugar ela fica surpreendida pela presença da jovem (ainda me questiono se vi a cena de maneira certa, tamanho absurdo). Esses são somente exemplos pontuais de uma má edição que permeia todo o filme.
Por fim, Supergirl ainda é um filme divertido (afinal, tem ótimas referências) com uma protagonista extremamente carismática e o cãozinho de CGI mais fofo. Porém falha em estabelecer uma identidade própria e fica amarrado ao tom “pateta adorável” que o novo universo DC parece estar tentando seguir.