A adaptação de Cuarón do romance de Dickens é um caso curioso e difícil de enquadrar, porque ao mesmo tempo em que considero o filme de Alfonso Cuarón uma adaptação tenebrosa do autor, também parece impossível negar que existe um bom filme funcionando autonomamente ali dentro. E talvez justamente por isso a sensação final seja tão estranha, porque, diferente da adaptação de David Lean que ao menos preservava com muita força o espírito dickensiano da infância, da formação psicológica e da atmosfera social mesmo quando diluía parte das tensões internas do romance, Cuarón praticamente abandona grande parte do eixo temático de Grandes Esperanças para transformar o livro num melodrama romântico noventista muito mais interessado na essência gravitacional do desejo entre Finn (Ethan Hawke) e Estella (Gwyneth Paltrow) do que em toda a estrutura social, monetária e de classe que sustenta este desejo no romance.
No livro de Dickens, o amor nunca está dissociado da questão de status social, ascensão financeira e vergonha de origem. O sentimento de Pip por Estella é constantemente atravessado pela humilhação de classe, pela inadequação econômica e pela tentativa desesperada de reconstruir a si mesmo como pertencente a um outro mundo social, e é justamente esta dialética entre amor, dinheiro e identidade que organiza emocionalmente toda a narrativa. Aqui tudo isso parece extremamente suavizado em prol de um erotismo sentimental quase soft porn, como se Cuarón estivesse muito mais interessado em filmar cigarros, corpos, olhares sedutores e encontros sensuais do que propriamente o funcionamento cruel das estruturas sociais que aprisionam aqueles personagens. E talvez o maior problema dramático desta escolha seja justamente o desaparecimento quase completo da ideia de longing tão essencial ao protagonista, porque Estella nunca parece verdadeiramente inalcançável. Ela está constantemente ao alcance físico, emocional e imagético de Finn, alterando completamente a lógica obsessiva do desejo presente no romance.

Ao mesmo tempo, seria injusto negar que Cuarón possui um olhar sentimental muito sensível de mise-en-scène para filmar estes encontros. Existe uma ternura genuína na maneira como ele aproxima aqueles corpos, organiza os silêncios e transforma o universo artístico num espaço de enebriamento emocional para aqueles personagens. Em vários momentos o filme realmente promove um encontro da sensualidade com a melancolia, principalmente nesta ideia de duas pessoas emocionalmente deformadas tentando transformar desejo proibido em amor sem conseguirem plenamente concretizá-lo. E talvez justamente por isso o filme funcione melhor quanto mais se afasta de Dickens e mais assume sua identidade de romance melodramático dos anos 90. Em muitos momentos a sensação é muito mais a de estar vendo algo próximo de Um Lugar Chamado Notting Hill (Michell, 1999) ou de um drama romântico noventista elegante do que propriamente uma adaptação dickensiana.
O problema é que mesmo funcionando parcialmente enquanto obra autônoma, o filme possui dificuldades muito claras de aprofundamento em tudo aquilo que não envolve Estella. A ascensão social de Finn é extremamente genérica e pouco dramatizada como construção do caráter do personagem, o personagem de De Niro surge quase jogado dentro da narrativa para voltar ao final, de modo que seu impacto que envolve uma virada chave da narrativa não tem o peso dramatúrgico esperado, e a senhora Dinsmoor (Anne Bancroft) aparece muito mais como uma figura excêntrica e imagética do que como verdadeiro motor dramatúrgico da tragédia emocional daqueles personagens. E aqui talvez fique ainda mais evidente a diferença em relação à adaptação de Lean: enquanto o filme de 1946 ao menos tentava preservar a estrutura moral, psicológica e social do romance mesmo simplificando partes dele, Cuarón parece genuinamente desinteressado nestas tensões, tratando-as quase como ruído periférico diante do romance central.
E uma das intervenções mais curiosas seja justamente como Cuarón acerta muito mais os espaços ligados à memória afetiva e ao primeiro amor do que propriamente os ambientes sociais que deveriam sustentar dramaticamente a trajetória de Finn. Enquanto toda a parte de Nova York possui uma falta de personalidade muito forte, quase como um espaço genérico de ascensão artística e financeira que não traz o peso à jornada do protagonista, a Flórida da primeira metade funciona perfeitamente como este lugar apartado do mundo vivendo em pobreza e decadência, quase suspenso no tempo, permissivo para o encontro do primeiro amor. Da mesma forma, as ruínas da mansão possuem uma presença imagética muito forte como espaço corroído pela passagem do tempo, um lugar isolado da realidade concreta em que aqueles personagens permanecem emocionalmente aprisionados, incapazes de sair daquela memória sentimental que organiza toda a narrativa. E talvez isso sintetize bem a própria adaptação de Cuarón, um filme muito mais interessado em estados emocionais românticos, atmosferas melancólicas e encontros sensuais do que propriamente nas estruturas sociais, psicológicas e morais que davam ao romance de Dickens sua verdadeira força.