Uma das maiores falhas no meu repertório cinematográfico sempre foi o Studio Ghibli. Não tenho nada contra o estúdio e muito menos contra produções japonesas, porém, por muito tempo, fiquei à espera do “momento certo” para assistir. Só recentemente resolvi dar o primeiro passo e adentrar nesse mundo, sendo Nausicaä do Vale do Vento a minha porta de entrada, e um excelente início.
No filme, acompanhamos um mundo arrasado pelos eventos dos “7 Dias de Fogo”, que destruiu a maior parte do ecossistema terrestre e forçou os humanos a viverem com extremas dificuldades em comunidades isoladas, além de terem de conviver com o “mar podre”, uma floresta com o ar tóxico que abriga insetos gigantes. Nesse contexto, Nausicaä é a princesa de um pequeno reino chamado de Vale do Vento e irá liderá-los em uma aventura para restaurar o equilíbrio da natureza e ajudar seu povo na resistência contra reinos vizinhos que tentam os dominar.
O primeiro fator que me chamou a atenção foi como o filme tem um ritmo bastante próprio. Depois de tanto tempo acompanhando animações hiper-estimulantes (principalmente vindas dos Estados Unidos, mas não só), ver Nausicaä do Vale do Vento foi um deleite. A obra é calma e possibilita constantemente a contemplação daquele mundo, o que é potencializado pela trilha sonora, que alterna temas belíssimos com muitos momentos de silêncio. Essa falta de sons, aliada à incrível animação, traz uma paz muito escassa no mundo de hoje e possibilita uma conexão única não só com os personagens como com a própria ambientação.
Essa conexão, além de gerar uma experiência audiovisual ímpar, potencializa a mensagem do longa. Afinal, Nausicaä do Vale do Vento é uma aventura em um contexto ambientalista. Quanto mais aprendemos sobre aquele mundo, mais vemos como cada peça tem seu papel, incluindo até mesmo os insetos e o mar podre, os quais pareciam ser o grande problema da trama em um primeiro momento. Nesse contexto, ter tempo para apreciar cada detalhe do universo retratado em tela é essencial para notarmos a beleza ali contida, mesmo quando estamos diante de trechos ameaçadores para os personagens.
Ao lado dessa importância do meio ambiente para a narrativa, é interessante notar como Hayao Miyazaki recusa o maniqueísmo na construção de heróis e vilões. Aqui, essas posições até existem, mas em nenhum momento se trata de uma luta do bem contra o mal, como fez James Cameron em Avatar, para citar um exemplo; pelo contrário, todos buscam salvar o mundo, sendo os métodos os únicos diferenciais. Esse é outro fator que, a meu ver, aprofunda mais a discussão ambiental do filme sem apelar para discursos simplistas, visto que trata a questão de maneira tridimensional e dá um passo adiante em relação à forma como o cinema costuma retratar tal assunto.
Apesar de ser uma aventura bastante singela em sua estrutura, replicando fórmulas milenares de mitos heroicos, Nausicaä do Vale do Vento é encantador. Uma obra que não precisa renunciar à fantasia a fim de passar uma mensagem maior — algo que a Disney parece ter esquecido — e que não precisa de discursos superficiais nem de grandes quantidades de informação para se desenvolver. Fascinante em sua paz e em seu silêncio, o meu início nesse universo não poderia ser melhor.