100 Noites de Desejo é um filme de fantasia que mescla iconografia da Europa medieval com a dos Peregrinos estadunidenses – o grupo considerado como os “pais fundadores” do país e notório pelo julgamento das bruxas de Salem, no fim do século XVII. Já a narrativa, baseada na graphic novel escrita por Isabel Greenberg, One Hundred Nights of Hero, tem inspiração no clássico oriental As Mil e Uma Noites, em que o cruel rei Shahryār descobre uma traição de sua esposa e estende seu ódio a todas as mulheres, tomando sempre uma nova virgem como esposa e a matando no dia seguinte, até que a jovem Scheherazade evita a própria morte contando histórias e despertando a curiosidade de seu marido.

No longa, a trama também envolve um mundo extremamente avesso ao gênero feminino, onde, entre outras restrições, mulheres casadas têm como única função a reprodução, sendo punidas com a morte, e não podem ler ou escrever. O artifício da contação de histórias é usado como resistência, tal qual Scheherazade, por um grupo de mulheres que aprendeu a ler e escrever, e através do bordado, uma das poucas atividades permitidas, consegue espalhar histórias ancestrais e memórias reais delas.

Uma dessas mulheres é Hero (Emma Corrin), que trabalha como empregada pessoal de Cherry (Maika Monroe), uma jovem julgada pelos religiosos locais por não conseguir engravidar e que recebe um prazo de 100 dias para conceber ou ser executada. O problema é que o marido (Amir El-Masry) não consuma o casamento, prefere a companhia de homens e despreza a esposa ao ponto de fazer uma aposta com o canastrão Manfred (Nicholas Galitzine) que, seja qual fosse o resultado, a mulher seria morta. Assim, o rapaz tem 100 dias para conquistar a moça, enquanto o esposo viaja supostamente a trabalho. Caso tenha sucesso, Manfred ganha o castelo, mas Cherry é punida pela traição; por outro lado, se ele não conseguir, ela é morta da mesma maneira por não ter engravidado durante esse tempo.

Hero, então, usa sua habilidade de contar histórias para distorcer a percepção de tempo de Cherry e Manfred, ao mesmo tempo em que descreve uma trama envolvente sobre três irmãs que desafiaram as convenções sociais aprendendo a ler e escrever e foram punidas mas mantiveram-se firmes em suas convicções e inspiraram mudanças na sociedade em que viviam. Essa história evoca o tema central da narrativa do próprio filme: uma reflexão sobre memória e resistência de grupos marginalizados (no caso específico, de mulheres).

A questão é que essa temática é levada muito a sério na narrativa e cria contraste com a estética de fantasia excêntrica e escrachada. Ao mesmo tempo em que estamos receosos sobre como Hero e Cherry vão conseguir escapar daquela situação, Manfred chega todo ensanguentado carregando um cervo comicamente gigante para entregar à donzela. Ou então, passeamos por um castelo medieval, com portas modernas e vitrais que mostram mulheres históricas assassinadas – com um tom engraçadinho –, enquanto a história contada por Hero reconta a vida dolorosa e injustamente manipulada de uma delas. É então que a ironia que o design de produção pitoresco evoca não se traduz no texto, bem como a gravidade implícita na narrativa não é levada a sério pelo visual.

Ao observar a graphic novel, que tem um design bem peculiar, com um traço rabiscado e pouco detalhado – me lembrou uma estética de cordel misturada com um Wolfwalkers (Moore, Stewart, 2020) sem as cores e mais “sujo” –, além de um tom bem sarcástico, parece que as escolhas feitas no filme não levam muito em conta o material-base, o que deixa ainda mais confuso o porquê delas. No livro, ainda há a mistura iconográfica, que remete ao mencionado julgamento das bruxas, fazendo esse paralelo com o mundo real, e a excentricidade, mas o tom do texto acompanha esse humor, deixando os homens e a religião mais ridículos do que temíveis. No filme, parece que apenas o personagem de Nicholas Galitzine segue essa lógica, sendo mais patético do que ameaçador, apesar de ainda apresentar perigo. Entretanto, o restante dos personagens não causa o mesmo impacto, seja pelo riso ou pelo medo.

Existe ainda um romance entre as duas protagonistas, que surge já perto da conclusão da trama e até então era desenvolvido apenas como amizade e sororidade. As duas atrizes, especialmente Emma Corrin, até tentam insinuar uma conexão mais profunda entre as duas por meio de olhares, mas precisa que o espectador já esteja esperando esse “algo a mais” para ser notável. Talvez a ideia do título do filme em português tenha sido para plantar essa sementinha no imaginário de quem fosse assistir, pois a palavra “desejo” pressupõe sentimentos mais aparentes que não estão presentes no filme.

Com isso, a conclusão da narrativa fica apressada e com a temática diluída. A questão da manutenção da memória como resistência é passada adiante apenas porque o roteiro precisava disso, já que, apesar de ainda ter uma causa (as histórias) para a consequência, a resolução deixa a sensação insatisfatória de um deus ex machina. O mesmo ocorre com as outras tramas, que ou são abandonadas – como a questão religiosa – ou surgem e concluem com velocidade recorde – como o romance. É um longa bagunçado, porém cheio de boas ideias que poderiam ser melhor trabalhadas.