Diferente de Nausicaä do Vale do Vento (1984) — filme anterior de Hayao Miyazaki —, O Castelo no Céu tem um caráter mais de aventura do que de fantasia. Aqui, acompanhamos Sheeta, uma menina órfã em um dirigível militar comandado por Muska, quando ocorre um ataque pirata e a garota cai, sendo salva por um colar misterioso que tem em seu pescoço. Em terra, ela conhece Pazu, um menino, também órfão, fascinado pelo lendário reino de Laputa; que ficaria numa ilha flutuante. Sheeta logo descobre que tem uma ligação com tal reino. Assim, os dois partem em uma jornada para descobri-lo, enquanto são perseguidos por militares e piratas.
Na primeira metade do filme, o enfoque é os protagonistas se conhecendo e lidando com perigos mais mundanos, em especial os vilões, os quais tomam a forma de estereótipos bem tradicionais de aventuras infantis, tanto em aparência quanto nos trejeitos. Apesar de as interações entre as crianças serem muito bacanas, assim como todo o desenvolvimento da personalidade deles, esse trecho todo é facilmente o ponto mais fraco da obra. As situações de enfrentamento são um pouco enfadonhas e deixam o ritmo da narrativa bastante lento, movendo o foco da curiosidade por Laputa para uma trama de perseguição bem desinteressante.
Contudo, a partir do momento em que se mergulha de vez na fantasia — marcado especialmente pela aparição do primeiro robô de Laputa — tudo melhora absurdamente. A beleza da animação e da trilha sonora fortalecem muito a magia que só Miyazaki sabe transmitir, chegando a seu ápice com a aparição do reino flutuante que dá nome à obra. Como de costume, é tudo muito deslumbrante e fascinante, com uma junção incrível entre antiguidade e modernidade e entre a natureza e as construções humanas.
Além disso, Miyazaki repete aqui algo que admiro muito em seus filmes: o silêncio e a calma que nos possibilitam ter um contato mais direto e contemplativo com a beleza da direção de arte e da trilha sonora — algo que já discorri na minha crítica de Nausicaä do Vale do Vento, por sinal. Apesar de O Castelo no Céu ter um caráter menos mitológico e mais material e singelo, ainda é nos dado a oportunidade de admirar esse mundo e nos emocionarmos com cada detalhe dele.
Desse modo, O Castelo no Céu é uma ótima aventura infantil. Pode não abordar grandes discussões ambientais ou existenciais como outros filmes do Studio Ghibli, mas é bastante divertido — especialmente quando assume mais seu lado fantasioso. Com uma direção de arte icônica, personagens incríveis e uma das melhores trilhas sonoras que já tive contato, o seu início lento fica em segundo plano em prol de mais um lindo filme de Miyazaki.