“Por que os vagalumes morrem tão cedo?”

A tragédia da guerra dispensa apresentações. Durante toda sua existência, o cinema buscou retratar os vários papéis que assumem os conflitos armados: dos soldados, dos civis, das crianças, etc. Da mesma forma, os filmes nos retrataram experiências de países distintos em obras como o fortíssimo Gen, Pés Descalços (Masaki, 1983), cuja trama aborda um menino sobrevivente da bomba de Hiroshima; Noite e Neblina (Resnais, 1955), documentário francês responsável por ser uma das primeiras divulgações das imagens dos campos de concentração nazistas; Vá e Veja (Klimov, 1985), que se passa na ocupação germânica da Bielorrúsia, entre tantos outros.

Nesse sentido, Túmulo dos Vagalumes é mais uma dessas micro-histórias da Segunda Guerra Mundial, e uma das mais impactantes. No filme, acompanhamos Seita, um menino de quatorze anos, e sua irmã menor Setsuko após eles ficarem órfãos em decorrência de um bombardeio na cidade de Kobe, no Japão, lidando com as dificuldades de sobreviver em uma terra arrasada.

A obra de Isao Takahata começa em seu fim. Como espectadores, já sabemos o final daqueles personagens desde os primeiros minutos, tornando a narrativa ainda mais fatalista e deprimente. Por isso, a narrativa de Seita e Setsuko não é exatamente sobre chegar a um fim determinado, mas sobre a produção de significados em uma existência vazia e desesperançosa. Sem a expectativa de ver um mundo diferente após a destruição, cada minuto é precioso, mesmo que em meio a uma dor que parece inevitável e infindável.

Assim, o diretor nos leva a diversos momentos em que a beleza e o sofrimento se misturam enquanto Seita e Setsuko tentam produzir sua própria felicidade e encontrar alguma faísca de liberdade em meio ao caos. Em cada momento, é necessário para eles ressignificar a dor e reacender o espírito infantil que lentamente se perde na tragédia. Porém, constantemente a realidade se impõe e o desamparo que ela causa é doloroso e assustador.

Essa ressignificação chega à imagem da obra como as luzes do céu, ora vagalumes, ora bombas, demonstrando a coexistência da vida e da morte na narrativa. Os vagalumes são causa de felicidade aos irmãos, mas estão destinados a uma vida curta, tal qual a esperança humana quando envolta de uma realidade material tão cheia de obstáculos. É curioso como Takahata opta por demonstrar as luzes das bombas de uma maneira tão parecida com os vagalumes, afinal elas também iluminam o céu, mas destinam ao túmulo a alegria e o espírito humano.

Túmulo dos Vagalumes é um dos retratos mais desoladores da maldade e da fragilidade humanas. A linda animação que já é marca do Studio Ghibli aqui toma uma nova forma, intensificando ainda mais a dor causada por sua narrativa. Um filme tão sensível quanto destruidor, é uma experiência única e inesquecível.