O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS LEVES!!!

A essa altura do campeonato, acredito que não seja mistério para ninguém o fato do cinema ser moldado pela nossa história, pelas mudanças da conjuntura social, política e existencial do mundo. Se as características principais da comédia screwball começaram a surgir com a desilusão capitalista causada pela Grande Depressão em 1929 e, portanto, pela necessidade de um escapismo que a grosso modo comentava os anseios daquela população, outro evento devastador iria tomar conta tanto da consciência quanto do inconsciente coletivo do ocidente: a Segunda Guerra Mundial.

No início dos anos 1940, a Humanidade tinha pouquíssima ciência do quão perverso era o regime nazista comandado por Adolf Hitler, mas seu despotismo já era sentido pelos países que rondavam a Alemanha, com a Polônia sendo um dos primeiros a cair pela blitzkrieg. Esse é o contexto que o clássico Ser ou Não Ser, do alemão Ernst Lubitsch, retrata e não é muito diferente do contexto geopolítico daquele ano de 1942. Acompanhando uma companhia prestigiada de atores do teatro varsoviano, o longa foca em seus esforços – especialmente os do casal Joseph (Jack Benny) e Maria Tura (Carole Lombard) – para ludibriar o Terceiro Reich e escapar para a Inglaterra, por meio de uma série de encontros e desencontros, coincidências e peripécias.

A natureza satírica da direção de Lubitsch já é entregue desde os primeiros minutos, quando Hitler é visto caminhando pelo centro de Varsóvia, enquanto transeuntes o encaram escandalizados e um narrador expõe o evento como um radialista. Ao voltar no tempo, revela-se que todo aquele momento foi nada mais do que os caprichos de Bronski (Tom Dugan), um dos atores da companhia, na tentativa de provar que é um convincente imitador do ditador, trecho que conclui com uma garotinha lhe pedindo um autógrafo, reconhecendo-o. O diretor nos apresenta a uma piada para subvertê-la com uma punchline que a transforma em outra piada.

Ser ou Não Ser (1)

Esta que, mais tarde no filme, torna-se visionária por dois motivos. Primeiramente porque logo as tropas nazistas realmente invadem a Polônia, deixando os atores da companhia sem trabalho e o teatro inutilizado. E, em segundo lugar, é um prenúncio de como a comédia e o teatro vão ajudá-los a escapar dos tiranos, já que, em meio a problemas conjugais envolvendo o casal Tura e o jovem aviador Sobinski (Robert Stack), apaixonado por Maria – de onde vem toda a veia screwball da obra –, eles usam suas habilidades nas artes cênicas e na improvisação para escapar das ciladas em que caem pelo acaso, em uma série de coincidências caóticas e cada vez mais absurdas.

Lubitsch mescla um humor físico básico – nada daquele caos quase incontrolável dos filmes estrelados por Cary Grant – a uma comédia verbal sagaz e ligeira em uma condução quase inteiramente teatral, em que toda a linguagem baseia-se em um entra-e-sai de escritórios e quartos de hotel e as únicas apostas dobradas são representadas pelo número de atores/personagens envolvidos. Nada mais pertinente, já que o cineasta parece incorporar a abordagem farsesca da própria trupe de atores intra filme, sem tantos floreios narrativos para não extirpar sua veia mais direta, verborrágica e até distanciada do teatro. Em certo ponto, a morte do traíra Prof. Siletsky (Stanley Ridges) ocorre sobre o palco, ao puxar das cortinas, sob a luz de um holofote e assistida pelos próprios atores, caracterizados de oficiais nazistas. Nesse momento, vale notar como a própria performance de Ridges após ser atingido por um tiro soa grandiloquente, como em uma tragédia shakespeariana.

Ser ou Não Ser (2)

Por outro lado, o humor screwball se insere dentro da dinâmica conjugal entre os Tura. O título do filme vem justamente daí, quando Maria pede para o jovem aviador encontrá-la no camarim enquanto seu marido, Joseph, performa o icônico monólogo de Hamlet, ação que faz o próprio questionar sua proeza cênica. A atriz está quase sempre no domínio da situação, enquanto os personagens de Benny e Stack sempre interrompem momentos arriscados para se comportarem como duas crianças competindo por um brinquedo. Joseph, por sinal, arrisca-se inúmeras vezes por ter o ego de ator ferido pelos oficiais alemães, em especial o Coronel Ehrhardt (uma interpretação hilária de Sig Ruman).

Pode-se dizer até que essa talvez seja a primeira grande comédia de “espionagem” protagonizada por um casal, já que, apesar de não serem espiões per se, todo o papel dos Tura em meio à estupidez dos nazistas (o único personagem que se leva a sério aqui é Siletsky) não difere muito de planos mirabolantes de filmes de espionagem que vieram antes ou viriam depois. Além de partilhar também o estereótipo de que a relação conturbada entre o casal principal vai sendo resolvida conforme seus planos em uma situação de risco vão sendo bem sucedidos.

Contudo, talvez o subtexto que mais me encanta em Ser ou Não Ser seja a forma como relaciona o intuito das comédias screwball extra filme – o escapismo durante períodos conturbados do mundo, mais especificamente do ocidente – com a fuga dos atores da Polônia pela própria sobrevivência. Se a comédia na ficção servia para o povo fugir de uma realidade desesperadora mesmo que não o tirasse totalmente dela, aqui narrativamente faz o mesmo com a companhia de teatro ao usar de suas interpretações como estratégia de fuga e, até mesmo, de resistência. Em um regime no qual a arte não pode se desenvolver, ela torna-se arma política. E Lubitsch encena isso da maneira mais divertida e leve possível. O momento em que o ator judeu Greenberg (Felix Bressart) enfim consegue proferir seu monólogo de O Mercador de Veneza quando é “capturado” pelas forças nazistas é tão engraçado quanto potente em uma mensagem humanista, em uma época em que as atrocidades do Holocausto nem tinham sido amplamente conhecidas ainda.

Ser ou Não Ser é uma pequena grande joia da comédia screwball e que, junto de O Grande Ditador (Chaplin, 1940) e Casablanca (Curtiz, 1942), não teve medo de enfrentar o horror nazista durante sua manutenção e em meio ao Código Hays. E que tenha sido comandada por um artista alemão só faz ficar ainda melhor.

Ser ou Não Ser (3)