Muitos historiadores, pesquisadores e fãs que acompanham a história da cultura pop sempre falam do fenômeno meteórico que foi a Beatlemania nos anos 60. Mas como traduzir o clima histérico daquela situação em um filme? Richard Lester nos dá uma ótima demonstração, mostrando aquela euforia sob a perspectiva da “banda do momento” de maneira bastante livre e descontraída. O longa procura não seguir uma narrativa convencional, ao prosseguir abordando como era a rotina dos Beatles de lidar com agenda de shows, fãs enlouquecidas e por aí vai. Mas o filme não se prende apenas a isso.

E acredita-se que quem é realmente fã da banda pode apreciar ainda mais esse filme, visto que a maneira como cada pessoa da banda se porta remete muito ao estilo de gente que eles já são acostumados a conhecer como pessoas e como artistas. Em relação às músicas, não se via muito esforço para saber como encaixá-las (podia ser como trilha sonora ou uma cena de performance delas), visto que se trata de um filme sobre uma banda de rock. A música obviamente é um elemento importante, pois ajuda a localizar o público mais leigo ao tipo de coisa que eles faziam e que arrastava toda aquela multidão para a direção deles.

E o que mais impressiona é como, ainda em seus primeiros anos, o estilo musical deles, utilizando de exemplo óbvio as faixas tocadas no filme, são músicas que ainda soam bem modernas e criativas, sobretudo se compararmos a o que era feito antes, com cantores como Elvis Presley, por exemplo, lançando canções de sucesso, mas que saturavam muito rápido. E essa força da banda ajuda bastante a moldar a identidade do próprio filme e incorporando a musicalidade no ritmo da obra.

Falando em ritmo, o filme já mostra o tipo de coisa que veremos logo nos primeiros minutos, quando observamos os Beatles tentando escapar de um monte de fãs gritando ao som da A Hard Day’s Night, música que dá título ao filme e é bem energética, assim como as cenas. Ο título do longa é a maior evidência da incorporação da música dos Beatles no filme. Sendo uma tradução literal de “Noites de um Dia Difícil”, o nome contrasta com o que vemos em grande parte da obra. 

E todas essas situações engraçadas e aleatórias acontecem em meio à rotina bastante agitada da banda de participar de entrevistas, ensaiar, pegar passagens, se apresentar em shows, lidar com o público extremamente maluco e que gritava o tempo todo quando eles apareciam. As situações, então, ao mesmo tempo que se mostram como uma espécie de suspiro de alívio no meio de toda insanidade, ajudam a capturar o clima extremamente caótico e sem precedentes que levou a banda ao topo do mundo, do qual ela nunca mais saiu.

Portanto, é um filme que pode funcionar para o público que não conhece a banda, pois, pelas características abordadas, captura a essência da Beatlemania e dos Beatles da primeira metade dos anos 60; e para quem já conhece, é um prato cheio que proporciona momentos bem “fanservices” para os beatlemaníacos de hoje em dia. Onde todas as situações, por mais desconexas que possam parecer, culminam num final que demonstra aquilo que a banda faz de melhor: música.