Escrito, dirigido e montado por Curry Baker, com o orçamento de apenas 1 milhão de dólares, Obsessão (2025) é um filme que mostra como boas ideias e uma boa equipe podem ser o suficiente para criar um novo clássico do terror.

A história acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem adulto que sofre de depressão, e é apaixonado por uma de suas colegas de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Toda a parte inicial do filme lembra uma comédia romântica (apesar da pitada de drama) em que o espectador vê como Nikki é adorável aos olhos de Bear — ela gosta de estar presente na vida dos amigos, preocupa-se com pessoas em situação de rua, é atenciosa mas um pouco moleca —, e esperamos que ele se declare para ela. Ao invés disso, ele usa um item que comprou em uma loja mística para fazer um pedido: que Nikki o ame mais que tudo no mundo.

O terror então começa na maneira como Nikki passa a agir, como se tivesse lapsos de consciência em meio a algo novo que toma conta de seu corpo. Enquanto Bear, mesmo percebendo que ela está fora de si, escolhe ignorar e fingir que está tudo bem, já que finalmente está recebendo dela o tipo de atenção que sempre quis. E, é claro, tudo vai escalando para algo mais perturbador e violento.

A atuação espetacular de Inde Navarrette como Nikki, juntamente com a maneira de enquadrar e iluminar as cenas, é o que constrói o terror. Por mais que seja uma mulher pequena, de traços delicados, ela consegue ser assustadora em seus rompantes de loucura, e também trazer aos momentos mais ridículos uma camada perturbadora que prende o espectador na tensão, sem dar espaço para o riso. Michael Johnston, como Bear,  não fica muito atrás: ele consegue transmitir com maestria o medo e o conflito interno do personagem na maneira como reage às ações de Nikki.

É interessante como Obsessão parte da premissa do medo masculino dos sentimentos das mulheres, do medo de ter uma namorada louca, e em momento algum é machista. Pelo contrário: há ali um comentário crítico sobre a performatividade feminina que é esperada em relacionamentos; sobre a idealização de uma feminilidade meiga e ao mesmo tempo sensual, além da devoção da mulher ao homem. 

Nikki é tudo isso quando Bear impõe a ela esse amor com seu pedido mágico, e ele consegue até mesmo desfrutar disso por um breve período (mostrado através de uma montagem, antes do terror se instaurar por completo). Porém esse tipo de comportamento é impraticável a longo prazo, significa para a mulher se anular como ser humano, e o filme explora quais seriam as consequências disso, se levado ao extremo. Ela perde sua identidade, seu corpo é tomado por essa outra persona, que conhece apenas uma frustração constante por existir somente a partir de outro.

A obsessão citada no título, no fim das contas, é a de Bear, que é obcecado por Nikki a ponto de preferir ignorar sua mudança visível de personalidade — mudança essa enfatizada não apenas pela voz mais aguda e meiga que a atriz escolhe fazer, mas também pelo figurino, que se torna mais feminino e sensual —, para poder fingir viver o romance que sempre idealizou. Mesmo quando a loucura de Nikki toma níveis assustadores, Bear não acha que o relacionamento é um problema, ele só quer que ela pare de agir estranho, que volte a ser a namorada supostamente ideal, por mais que essa nunca tenha sido a verdadeira Nikki. No fim das contas, Bear se torna vítima de sua própria obsessão.

Por mais que exista na trama esse elemento mágico do pedido, Obsessão é um filme que causa medo e desconforto por sua proximidade com a realidade. Os personagens são pessoas comuns, em situações comuns, que se tornam intensas e violentas a partir do comportamento imprevisível de Nikki. A sensação de tensão que o filme traz é sempre crescente, com uma coisa cada vez mais perturbadora que a outra na tela, e o jumpscare são os gritos súbitos de Nikki, que mantêm o espectador em alerta pelo que virá. Em suma, é um excelente terror, que não precisou apelar para o capiroto para ser assustador.