Em 1992, Hayao Miyazaki já estava relativamente consolidado como um grande nome da animação japonesa, por ter sido autor de aclamadas obras anteriores ao Studio Ghibli, como Lupin III: O Castelo de Cagliostro (1979) e Nausicaä do Vale do Vento (1985); quanto dentro do estúdio, como O Castelo no Céu (1986), Meu Amigo Totoro (1988) e O Serviço de Entregas da Kiki (1989). Por isso, é natural que haja uma expectativa em relação a qualquer uma de suas obras, não exatamente quanto ao tema, mas quanto à abordagem, especialmente em comparação às suas produções anteriores.

Nesse contexto, Porco Rosso: O Último Herói Romântico vem ao público em 1992 com uma proposta drasticamente diferente do que se esperava do diretor: na Itália da década de 1930, piratas do céu aterrorizam o Mar Adriático em busca de riquezas, e o único capaz de pará-los é um ex-piloto da Primeira Guerra Mundial misteriosamente transformado em um porco. Entretanto, tudo muda quando os piratas contratam um experiente piloto norte-americano para acabar com o porco, o que faz o protagonista buscar ajuda de um mecânico e de sua neta Fio Piccolo.

Assim, é evidente haver uma ideia mais madura. Marco (o piloto transformado em porco) é um adulto que se comporta como tal, e isso é mostrado especialmente em suas relações com a política e com as mulheres. Aqui reside minha primeira resistência com Porco Rosso: não há nada de mal em ser um filme que visa o público adulto; contudo, o acúmulo de temas sacrifica a naturalidade de sua inclusão na narrativa. Porco Rosso é uma aventura bastante direta e simples — aspecto que também não seria um problema por si só — que insiste em tratar de maneira superficial de assuntos nada superficiais, normalmente por meio de uma lógica informacional e de frases de efeito, ao contrário de diluir tais assuntos na imagem e no som, algo que Miyazaki já demonstrou fazer com maestria.

O principal exemplo de tal anemia estilística de abordagem temática é o fascismo. Além de a perseguição política de Marco ser totalmente descontextualizada na trama (afinal, o conflito principal é entre ele e Curtis, o piloto norte-americano), os comentários antifascistas de Miyazaki se limitam a algumas falas soltas. Não é à toa que, quando se fala do tema no filme, sempre volta a frase “Melhor ser um porco que um fascista”; isso se dá pela falta de qualquer outra ideia imagética relacionada ao antifascismo, que é reduzido a uma mera inclusão de informações, algo que vai na contramão da filmografia do diretor e anula o poder da crítica.

Nessa abordagem bagunçada e pretensamente madura, também fica destacada uma certa dissonância entre temas adultos e a abordagem lúdica. O aspecto fantástico, que se resume à ideia de um porco que pilota hidroaviões, perde sua razão de ser no momento em que esse protagonista age de maneira questionável e parece ter suas ações “desculpadas” pelo filme na medida em que elas ficam em segundo plano em prol da “fofura” do porco. Dentro dessa aventura divertida de um porquinho piloto, há uma desconfortável quantidade de comentários misóginos e de relações esquisitíssimas entre os homens (inclusive Marco) e a Fio, que conta com dezessete anos no filme — algo que Miyazaki, de maneira inexplicável, também inseriu em O Castelo no Céu (1986).

Evidentemente, nada disso tira o mérito visual e musical de Porco Rosso. As cenas de aviação são deslumbrantes e empolgantes; e a trilha sonora é sensacional, remetendo muito ao cinema noir e aos filmes ocidentais de espiões, algo que dá à obra diversos trechos fascinantes e divertidos. É, além de uma bela homenagem, uma experiência sensorial única, como já é de costume do Studio Ghibli.

Enfim, posso ser minoria no meio crítico e em relação ao público, porém não gosto de Porco Rosso. Apesar de seus méritos audiovisuais, não consegui me conectar com os personagens, especialmente Marco; acho inefetiva a tentativa de abordar política; e odiei particularmente toda a misoginia recreativa que se reflete tanto nos homens quanto no desenvolvimento das personagens femininas.