Tron: Uma Odisseia Eletrônica é um desses filmes cuja premissa os prepara para se tornarem clássicos, porém acabam esquecidos. A produção de 1982, inclusive, só não foi completamente deixada de lado com o passar dos anos por conta da insistência da Disney em reviver a história com Tron: O Legado (Kosinski, 2010), Tron: A Resistência (série que foi exibida entre 2012 e 2013) e o recente Tron: Ares (Rønning, 2025). Há alguns motivos para tal esquecimento; entretanto, também há razões para lembrarmos desse quase-clássico.

No filme, acompanhamos Kevin Flynn (Jeff Bridges), um jovem engenheiro de software que trabalhava para a ENCOM e foi demitido após outro funcionário, Ed Dillinger (David Warner) roubar seus projetos e ser promovido a vice-presidente da companhia. Assim, Flynn decide invadir o servidor da ENCOM para encontrar provas da fraude de Dillinger, e acaba sendo digitalizado para dentro do computador da empresa, onde irá se juntar a Tron (Bruce Boxleitner) e Yori (Cindy Morgan) para derrotar o MCP, um programa que está se tornando cada vez mais inteligente e pretende dominar o mundo.

A relação máquina-homem é curiosa em Tron: Uma Odisseia Eletrônica. Inserido em um contexto de inauguração do medo da humanidade em relação à autossuficiência da tecnologia — como tratado por filmes bem melhores como 2001: Uma Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968) e O Exterminador do Futuro (Cameron, 1984) —, o longa de Lisberger é um dos mais distintos. O destaque desta obra em relação a outras se dá a partir de dois pressupostos que vêm antes e que são bem maiores do que o trabalho visual: a inversão da lógica de inserção de um objeto ao outro na relação humanidade e tecnologia, e a personificação do contexto digital.

A subversão do raciocínio narrativo em comparação ao convencional fica bastante clara quando comparamos com outras obras da mesma época e gênero. Se em O Exterminador do Futuro (Cameron, 1984) as máquinas são uma criação humana que retira o nosso domínio sobre o mundo e em Blade Runner: O Caçador de Androides (Scott, 1982) os robôs se inseriram na sociedade (algo que pode se aplicar parcialmente a Alien: O Oitavo Passageiro também); em Tron: Uma Odisseia Eletrônica a tecnologia forma o seu próprio mundo e insere os humanos nela. Não sei se foi a primeira vez que esse tropo foi abordado no cinema, porém certamente não era a estrutura tradicional — algo que só viria a se tornar mais comum com Matrix (Wachowskis, 1999). Aliás, Tron: Uma Odisseia Eletrônica ainda se diferencia de seus pares por sequer abordar a questão a partir de robôs, levando a um interessante processo de concretização do abstrato.

No filme de Lisberger a tecnologia é personificada. Não se trata de criações que se parecem com humanos; são códigos que, dentro daquele mundo, tomam formas humanas. A questão do receio toma, assim, outra forma: não é somente sobre termos nosso lugar no mundo substituído, mas sobre termos o nosso próprio mundo substituído — mais um aspecto que viria a ser repetido e imensamente melhor desenvolvido em Matrix. A independência do programa sobe a um patamar inédito: multiplica sua inteligência sem precisar de humanos, inaugura um regime fascista e absorve pessoas para seu mundo digital. É um filme da Disney, então, obviamente, tudo dá certo no final; contudo, essa possibilidade, se tomada isoladamente, é uma das mais assustadoras do cinema.

Esse é o pilar de Tron: o medo da inovação sendo representado pela criação de um novo mundo e pela personificação das abstrações digitais — ainda mais considerando como o universo digital era abstrato em 1982 se comparado a hoje. Debater esse contexto de Tron e como o filme retrata esses aspectos é, ao meu ver, mais interessante do que assistir ao longa em si.

Isso porque toda e qualquer questão capaz de envolver o espectador, sejam as reflexões sobre a relação homem-máquina (sobre a qual discorri antes), sejam as relações entre os personagens, ficam perdidas em meio ao deslumbre visual. Sim, é uma obra lindíssima, com designs idealizados por um dos grandes quadrinistas da história (Moebius) e executada com uma mistura de psicodelia e fantasia digital deliciosas.

Entretanto, o descompasso entre a beleza das imagens e o vazio da narrativa é gigante, tornando tudo sem alma, sem energia, sem vida. Ora, se a proposta era personificar a tecnologia, por que ela ainda parece tão fria? Até mesmo Jeff Bridges, que começa o filme tão vívido, é engolido por essa dinâmica protocolar de aventura da Disney. É como se todo o cuidado e carinho da direção de arte e da fotografia não se refletissem no restante, fazendo com que a imersão na obra seja frágil por não possibilitar qualquer conexão emocional mais forte.

Esses aspectos fazem Tron: Uma Odisseia Eletrônica ser não só meio vazio como um pouco cansativo. Sim, é incrível ver a arte de Moebius tomar movimento, e é também muito curioso ver uma inovadora visão acerca do medo humano das máquinas; todavia, é uma pena que tudo isso tenha caído nas mãos da Disney e de Steven Lisberger, os quais tornaram essa proposta muito menos bem desenvolvida do que poderia ser. Em vez de apostar tudo na imersão mais direta do audiovisual, condicionaram a trama a uma lógica dramática tradicional, a qual é, como já falei tantas vezes aqui, vazia. Queria muito ver essas mesmas ideias sendo executadas pelo James Cameron.