O terror está eternamente em crise. Não falo aqui sobre qualidade, mas sobre objetos de interesse. Historicamente, o terror é uma vanguarda temática; um gênero que busca romper constantemente com as convenções técnicas e morais do cinema. Antes mesmo de a linguagem cinematográfica se estabelecer, Méliès já brincava com ela em 1896 com O Solar do Diabo. Com o passar dos anos, o universo temático dessas obras se torna mais complexo, e passa a abordar uma diversidade absurda de medos: desde alguns mais simples como a morte em A Carruagem Fantasma (Sjöström, 1921) até outros mais teoricamente densos e socialmente determinados, tais como o controle do corpo feminino em O Bebê de Rosemary (Polanski, 1968) e a solidão do mundo moderno em Pulse (Kurosawa, 2001).

Contudo, tal expansão e popularização do gênero traz consigo uma abertura que, inevitavelmente, relativiza a própria natureza do terror. Um dia Halloween (Carpenter, 1978) foi assustador, porém a repetição infinita de seus códigos pode nos fazer esquecer do quão especial ele é — e esse comentário pode se aplicar a todos os clássicos. Paradoxalmente, um dos segmentos do cinema que mais o inovou é o que também mais criou clichês. Ainda que o clichê, por si só, não determine a qualidade de uma obra, quando analisamos o plano geral, esse amontoado de repetições esvazia o gênero. As infindáveis continuações horrorosas dos slashers, o mesmo filme de exorcismo sendo lançado todo ano, mais um longa sobre trauma e luto etc. Não é uma crise de clichês em si — afinal, mesmo eles podem ser imensamente bem utilizados; é uma crise, como falei, de objetos de interesse: o terror se tornou um gênero que perdeu sua capacidade de buscar algo sobre o que comentar e está condenado a somente repetir as mesmas tratativas do medo que já foram definidas há décadas.

Por isso, Bom Menino é especial, não por ser um filme revolucionário, mas por, finalmente, buscar um objeto de análise capaz de gerar alguma sensação em meio à frieza do cinema de terror recente. A história aqui é a de Indy, um cachorro que se muda com seu dono Todd (Shane Jensen) para uma casa de campo da família, na qual assombrações começam a afetar o homem, fazendo com que Indy tente protege-lo a todo custo. A trama, como se pode ver pela sinopse, é simples e direta, todavia, isso não a faz menos perturbadora.

Isso porque a perspectiva é inteiramente a de Indy. Acompanhamos o cachorro de perto por todo o longa, e isso é extremamente estressante. Acho particularmente angustiantes obras que abordam a vulnerabilidade perante o horror — nos moldes do primoroso Ju-on: O Grito (Shimizu, 2002) — e Bom Menino leva isso a um outro nível. Sim, há uma preocupação natural advinda da própria proposta de trazer um cachorro ao protagonismo; mas a obra não se limita a isso, misturando essa relação mais direta entre protagonista e assombrações com a decadência de Todd e o contexto familiar que sempre retorna ao primeiro plano.

Tal ideia inicial é traduzida de maneira muito inspirada por parte do diretor Ben Leonberg. Primeiro, por parte da fotografia lindíssima que assume as características da câmera digital em prol de criar um visual particular muito interessante. Segundo, pela imersão que o filme nos concede, principalmente por meio da relação íntima que criamos com os personagens e com o ambiente e pela efetividade das assombrações. Tal conexão se dá já no início, quando vemos um pouco da história de Indy, e prossegue por toda a obra, em especial quando ele lida com o passado da família de seu tutor.

É, desse modo, um longa que se aproveita muito da atmosfera como veículo do terror. Para tanto, o diretor se utiliza de dois mecanismos centrais: o posicionamento da câmera na altura do cachorro — ainda que não sob o ponto de vista dele, a não ser por trechos pontuais — e o destaque extremamente reduzido aos humanos. Conjuntamente, esses aspectos buscam sempre ir além de explorar a vulnerabilidade do cão, nos colocando simultaneamente como espectadores e como vítimas do mal que assola a residência; conectando a natural irracionalidade do animal com a inevitabilidade da chegada do mal até a câmera, além do constante desamparo gerado pelo afastamento emocional e até imagético dos seres humanos. Indy está sozinho com a responsabilidade de se salvar e de salvar seu tutor, e nós somos forçados a acompanhar isso da maneira mais angustiante possível.

Como disse, Bom Menino é especial. Como um amante de terror, é um filme que me deu esperança nas possibilidades que o gênero ainda tem de explorar novas possibilidades, mesmo que de forma tão simples quanto a abordagem do presente longa. A partir do olhar assustado de Indy e da deterioração de tudo ao seu redor, temos um filme incrivelmente imersivo e agoniante, que chama a atenção tanto por sua particularidade quanto pela sua execução quase impecável.