Primeira cena: a esposa acorda, o marido já desperto, ela dá bom dia e ele dá um tapa na cara dela antes de levantar da cama. Nesse momento já temos o tom que o filme vai seguir. Em seguida ela vai para os afazeres de casa e, em uma gravação antiga, começa uma canção que dita “c’e ancora domani la felicità” (ainda haverá felicidade amanhã). É nisso que Délia acredita: para ela o tempo já passou, mas como o título do filme também denuncia, ainda há o amanhã.
Com a fotografia em preto e branco e a história se passando no momento imediato pós segunda guerra mundial, a diretora estreante Paola Cortellesi constrói a expectativa sobre uma trama que evoca o neorrealismo italiano. Porém, logo somos impactados por uma música moderna que destoa muito do que está em tela e, dessa forma, o filme lembra-nos que estamos em 2024 e os assuntos ali mostrados vão ressoar com os dias de hoje.
Délia é uma mulher trabalhadora presa em um relacionamento violento e tóxico, mãe de uma jovem que já tem idade para casar e de dois meninos. Ela aceita a sua condição, apesar de repreendida pela melhor amiga, e não sofre por escolhas erradas do passado, mas irá mover mundos para que sua filha não cometa os mesmos erros e se case com a pessoa errada. Uma carta misteriosa será a catalisadora para que ela aja.
Em seguida, preciso comentar alguns aspectos do filme que me foram gratas surpresas e que talvez criem expectativas erradas em quem já o veja sabendo. A violência sofrida pela protagonista é filmada como uma cena de dança com o esposo em mais de uma ocasião, o que pra mim foi completamente inesperado, mas que, pensando em retrospecto, até faz sentido com o tom jocoso estabelecido de início. No entanto, acredito que a escolha da direção em criar uma dramédia e tratar a violência doméstica dessa maneira é estranha pela falta de seriedade com o tema. A intenção talvez fosse criar um subterfúgio para não mostrar um espancamento; criar uma leveza ou humor, mas não sei se foi feliz nesse aspecto. Diferente, por exemplo, da cena de explosão.
Ao final do filme, o conteúdo da carta é revelado e, embora tenha uma simbologia interessante (e traga à tona novamente a esperança anunciada pelo título), é um pouco decepcionante. Não só pelos acontecimentos, mas também pela construção das sequências apressadas para a conclusão.