Remanescente de uma época em que filmes baseados em histórias em quadrinhos ainda podiam ser despretensiosamente maneiros, O Corvo, dirigido por Alex Proyas, é a primeira adaptação da original de mesmo nome e também contou com a colaboração do autor James O’Barr na concepção. Inicialmente idealizado pelo estúdio como um musical protagonizado por Michael Jackson, o resultado final foi um drama gótico de ação estrelado por Brandon Lee.

O longa começa na noite que precede o dia das bruxas, chamada de “noite do demônio”, na qual o agente Albrecht é chamado para o apartamento de um casal que foi atacado brutalmente. Lá ele encontra Shelly ainda lutando pela vida, e o músico Eric Draven já morto. Um ano depois, o rapaz é ressuscitado por um corvo. Segundo a lenda, a ave, que carrega os mortos para outro plano, ajuda almas inquietas a voltarem para resolver as pendências da vida. Dessa forma, Eric volta confuso para o apartamento onde morava e ao ter contato com os objetos e o ambiente ele relembra a violência que ocorreu ali. Nesse momento começa uma instrumentalização que parece um som de pássaro e a música Burn, do The Cure, explode ao mesmo tempo que vemos em planos detalhes o músico se vestir e maquiar o rosto para consumar sua vingança.

Essa cena é representativa do que vai ser o filme daqui em diante: uma narrativa direta ao ponto com o visual mostrando tudo da maneira mais descolada possível. O diretor assume uma estética e edição provenientes de histórias em quadrinhos, como na maneira em que insere os flashbacks do casal, como movimenta a câmera para seguir o voo do corvo, nas cenas de ação em plano aberto e no uso das silhuetas em contra-luz. Os ambientes também parecem sair de um universo fictício: são amplos, cinzas, vazios e levemente distorcidos, além da caracterização gótica grunge da decoração e dos personagens.

A artificialidade visual está também nas atuações exageradas. O herói sente com intensidade, quase melodramática, e por isso os sentimentos que transbordam da tela não precisam de maiores explicações. Bem como a maldade criminosa da gangue de vilões também não precisa de profundidade ou redenção, eles apenas são arquétipos de vilania, e com aparência diversa suficiente para que se possa distingui-los. Sendo assim, o filme foca principalmente em entregar catarse visual em todas as cenas, sem perder tempo com contextos desnecessários. Mesmo em momentos calmos, como a cena em que ele toca guitarra no topo do prédio, a ideia é avançar a história da maneira mais formidável possível.

Fato que Eric Draven é um deleite também por causa da brilhante atuação de Brandon Lee. Ele traz a profundidade necessária para as emoções de um romântico, ao mesmo tempo que tem uma fisicalidade estupenda e ameaçadora de um protagonista de ação. Assim, ele cria um herói tão carismático quanto quebrado, em paralelo à tragédia da vida real. O filho de Bruce Lee perdeu a vida em um acidente com arma de fogo durante a gravação do filme, faltando apenas três dias para o final das filmagens.

É uma lástima que hoje o filme seja lembrado mais pela morte de seu protagonista do que pelas qualidades que o colocam como “clássico cult”. O Corvo é um filme de herói único, com uma atmosfera muito própria e visualmente inesquecível (e algumas cenas que claramente serviram de inspiração para outros cineastas – estou olhando para você, Christopher Nolan).