Antes de assistir o longa, eu ouvi um amigo o caracterizando como um filme de fato revolucionário, não no âmbito “esquerdonidense”, mas sim uma narrativa que realmente critica de maneira direta e no âmbito social o cenário corporativo e capitalista dos Estados Unidos. Para aqueles que não se familiarizaram com o termo, “esquerdonidense” é o que podemos chamar de um neologismo político, usado normalmente de maneira pejorativa para se referir a correntes da esquerda influenciadas por pautas, linguagem ou práticas políticas associadas aos Estados Unidos. Ou seja, temáticas sociais que normalmente estariam ligadas ao marxismo ortodoxo, são fortemente influenciadas pela mentalidade liberal — tanto do governo quanto de seus cidadãos — da política social do país. De certo modo, o sistema absorve críticas e as insere como mercadoria, e dessa forma, discursos potencialmente subversivos são incorporados à indústria do entretenimento sem necessariamente ameaçar suas bases econômicas.

Em contrapartida, existe um cinema mais independente que radicaliza essas questões, frequentemente quebrando com a narrativa convencional e com a estética comercial. Filmes relacionados a coletivos, bases sistemáticas segregacionistas ou produções de baixo custo que costumam abordar gênero, raça e classe de forma mais confrontadora, sem precisar conciliar isso com grandes públicos_. Desculpe Te Incomodar_ se diferencia bastante desse tipo de crítica enlatada, não apenas em como ele trata suas temáticas políticas, mas também em sua linguagem cinematográfica.

Na trama, Cassius Green (Lakeith Stanfield) é um jovem negro desempregado e endividado que consegue um emprego de vendedor em uma empresa de telemarketing. Logo ele descobre que a única maneira de realmente ascender como uma minoria dentro da empresa, é se atrelar a um tipo de performance social que os próprios trabalhadores se referem como “voz branca”, uma maneira de se comunicar de um jeito aceitável com a classe branca dominante. Assim, Cassius cresce rapidamente dentro de seu emprego, enquanto seus colegas, que se mantém nos cargos mais baixos, protestam de maneira cada vez mais fervorosa por melhores condições de trabalho.

Ao mesmo tempo em que o ativismo gradualmente aumenta sua influência, Cassius vai cada vez mais se deparando com as práticas bizarras e assustadoras da WorryFree, uma empresa que oferece contratos de trabalho vitalícios em troca de abrigo e comida, prática essa análoga à escravidão. É nesse ponto em que o filme mantém suas bases críticas: quanto mais Cassius adentra os níveis de cargo, mais a o longa vai ficando propositalmente esquisito e absurdista, culminando em fatores que se afastam do realismo estético e narrativo, anexando elementos curiosos de linguagem, e ideias partidas da ficção científica.

A linguagem de Desculpe Te Incomodar é elaborada como uma mescla intencionalmente instável de sátiras e alegorias políticas e de surrealismo visual, com o objetivo não só de retratar o capitalismo com escárnio, mas também de desestabilizar a maneira como o espectador o entende. O diretor Boots Riley não escolhe um realismo convencional; ele desenvolve uma linguagem que, por si só, é uma crítica política. Nesse aspecto, o filme adota uma estética de exagero e ruptura.

As mudanças bruscas, os comerciais exagerados e a própria lógica narrativa que se torna grotesca vão além de apenas decisões estilísticas, são também táticas visuais políticas. Isso vai desde a maneira com que Riley monta as ligações de telemarketing, onde Cassius metaforicamente cai dentro do ambiente onde o cliente se localiza, até a descoberta de literais híbridos de humanos e cavalos em cativeiro. Ao se afastar do realismo desta maneira, o filme propõe que o capitalismo é puramente  e intrinsecamente absurdo, mesmo sendo naturalizado. A linguagem surrealista atua como uma hipérbole crítica, intensificando o que já existe a ponto de se tornar inescapável.

Nesse contexto, a ascensão de Cassius na empresa, à primeira vista, parece ser uma história clássica de sucesso pessoal, até que essa é subvertida ao revelar como esse sucesso requer conivência com sistemas corporativos violentos e ausentes de quaisquer empatias e humanidade. A diferença entre o mundo de cima, cercado de luxúria e ganância desenfreada, e os trabalhadores explorados, que se amontoam todos os dias para reivindicar princípios básicos do trabalho, evidenciam uma divisão de classe que não pode ser superada apenas pelo esforço individual. Como dito na teoria da hegemonia cultural de Antonio Gramsci: o sistema se mantém não apenas por meio da força, mas também por meio do consentimento e da internalização de seus valores.

Por fim, a reviravolta surreal do terceiro ato — que poderia ser vista apenas como chocante ou absurda — é, de fato, o ponto culminante da linguagem política de Boots Riley. Ela representa visualmente a desumanização extrema do trabalhador, convertendo metáfora em corpo e exploração em transformação física. Nesse ponto, o filme deixa de lado qualquer sutileza e declara que o capitalismo não só explora o trabalho, mas também transforma o ser humano.