O cinema catástrofe hollywoodiano tem se preocupado muito com as questões climáticas, especialmente a partir do fim do século XX. Desde então, o fim do mundo já foi pensado de várias maneiras: enchentes, terremotos, aquecimento global e até a lua já colidiu com a Terra, mas o principal foco destes filmes foi a encenação grandiosa – de que maneira excitante podemos imaginar e filmar o apocalipse? A coprodução de França e Bélgica, Tempestade Ácida, usa o fenômeno climático exagerado, mas nunca como um espetáculo, tendo como foco ressaltar o alerta de como essas situações extremas podem afetar o planeta de maneira fulminante.
O filme começa de modo um pouco inusitado, com alguém gravando em um celular uma revolta de trabalhadores de uma fábrica contra o patrão, após uma companheira sofrer um acidente de trabalho. Logo descobrimos que ela é a namorada do nosso protagonista Michal (Guillaume Canet), que acabou sendo preso por conta da manifestação e está com tornozeleira eletrônica. Ele é o pai de Selma (Patience Munchenbach), uma garota que mora com a mãe, sente falta do pai e se relaciona melhor com animais do que com os colegas da escola. Ela percebe que há algo de errado quando assiste uma reportagem, na casa do pai, sobre chuvas ácidas nas Américas, mas quando comenta com Michael ele diz que não é nada.
Não demora muito para que as chuvas viajem de um continente a outro e logo Selma precisa ser resgatada de um passeio escolar pela mãe, Eloise (Laetitia Dosch), e o pai. Assim, o casal divorciado e a filha vão precisar se entender para lidar com a situação apocalíptica. Dessa dinâmica, surge mais uma característica do filme catástrofe, que é seguir a jornada melodramática de um grupo de personagens tentando sobreviver e resolver questões entre eles.
Apesar de se dedicar mais ao drama do que à ação, o filme permanece em constante movimento e tensão não só com o que pode acontecer com a família, mas também com as pessoas que os encontram pelo caminho e até o destino da humanidade mesmo. A chuva ácida é tratada quase como uma entidade que persegue os personagens e destrói completamente tudo o que toca. O ácido corrói todos os materiais, com velocidade diferente, de metal a concreto, além de transformar qualquer local com água em grandes barris mortais. Portanto, encontrar abrigo e água é uma provação para eles, e nós, espectadores, acompanhamos de perto todo o sofrimento.
Em algumas sequências o filme chega a se assemelhar mais a um longa de terror do que de ação, quebrando mais ainda o estereótipo do gênero em Hollywood. Além do clima soturno e acinzentado, tem tensão criada pela aproximação da chuva e até momentos em que as consequências do ácido na pele são evidenciadas. Em outros, como por exemplo, quando a família encontra uma mãe e filho em uma casa, a obra se transforma em um filme de assombração, em que todas ficam à espreita da chegada da entidade (a chuva) e a água é filmada como um monstro rastejante e “pingante”.
Por conta disso, mesmo alguns momentos de respiro logo são transformados em mais uma sequência de provação e pesadelo: há uma desesperança intrínseca ao filme. A prisão dos manifestantes, logo no início, já anuncia que há um desinteresse geral em buscar soluções e preocupação apenas com o individual, bem como a negação das questões climáticas e o tratamento destas como problemas locais e não globais. Por outro lado, o longa aponta as questões apenas para aceitar que o fim está próximo, então, ao mesmo tempo que não há o heroísmo típico do estadunidense fictício nessas situações extremas, também não tem preocupação em explicar ou resolver. É o que é. Fica o amargo na boca e a reflexão sobre o que faremos sobre isso no mundo real.