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Nenhuma forma de arte deve ser utilitária ou possuir funções práticas. Porém, quando falamos sobre sentimentos e relações humanas, a expressão artística pode refletir ou ressoar nas experiências pessoais de cada um e, com isso, ajudar muitos indivíduos a superar uma intensa fase da depressão, lidar com o luto pela perda de um ente querido, desbravar a própria sexualidade, reparar os próprios erros com aqueles que ama…

A reflexão de Joachim Trier em seu novo longa Valor Sentimental não é novidade para filmes metalinguísticos que falam sobre o processo criativo de artistas em tempos de crise. Na verdade, isso é tão comum que já podemos considerar um subgênero. O que é destacado na condução do cineasta aqui é como ele usa o naturalismo não como a manutenção de uma tendência estética ou a fomentação de um vício de linguagem (como tantas obras lançadas ultimamente), mas como memorabília familiar, seja ela nostálgica ou traumática. Nessa exploração de memórias da família Borg, o leque temático de Trier se abre sob diferentes formas a partir de seus personagens quebrados.

Ao tentar voltar à ativa com um novo filme baseado na vida de sua mãe, o cineasta norueguês Gustav Borg (Stellan Skarsgård) convida sua filha mais velha Nora (Renate Reinsve) para representar o papel principal a fim de reparar sua fria relação paterna. Quando ela recusa, Gustav acaba apelando para uma estrela americana em ascensão chamada Rachel Kemp (Elle Fanning), o que se prova comercialmente certeiro mas pessoalmente deslocado. O primeiro grande acerto de Trier aqui é não estabelecer uma pessoa como protagonista, mas sim a casa da família Borg. Em uma narração inicial que parece saída de um livro de memórias e posiciona diversas gerações, sob diferentes contextos, em cada cômodo da construção, o filme nos apresenta às rachaduras que fazem a casa “afundar” em sua própria estrutura.

É uma metáfora mais do que óbvia – porém não menos eficiente – de que aquele lugar é a representação da família em crises constantes. Esse talvez seja o grande tema central da obra e é apresentado com tanta sutileza que o público só se dá conta nos momentos finais: o trauma geracional. É um tanto irônico que o ator Stellan Skarsgård tenha dado declarações controversas sobre o mestre sueco Ingmar Bergman mais cedo neste ano, já que seu personagem é uma versão de Bergman vivendo no século XXI. O nome de sua mãe ser “Karin”, possivelmente uma coincidência por ser comum na Escandinávia, ressoa com a mãe do cineasta sueco que, por sinal, inspirou o nome de suas inúmeras personagens, além de suas relações com parceiras de trabalho e seu distanciamento emocional das filhas.

Contudo, se tem uma característica que os aproxima mais do que todas as outras é o uso de suas obras como forma de lidar com seus próprios demônios. E é aí que Trier apresenta seu maior trunfo, com um dos desenlaces mais belos dos últimos anos na cena que conclui seu novo longa. Ao explorar a vida de sua mãe e os motivos que a levaram a cometer suicídio em um dos quartos daquela casa, o personagem de Skarsgård também busca reparar os erros que cometeu com suas filhas em um paralelismo entre passado e presente, curar o trauma a partir do derretimento da bola de neve que foi criada.

O arco da personagem de Fanning, por sinal, soa deslocado porque de fato o é. Das quatro figuras principais, ela é a intrusa, um símbolo da incomunicabilidade constante dos Borg, já que Nora e Gustav não se ouvem em momento algum e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), a filha mais nova, não consegue enfrentar o pai e acaba sendo constantemente complacente. Não acredito que seja coincidência que Rachel Kemp é a personagem que mais traz elementos “falsos” à narrativa, como o contrato com a Netflix (em um momento muito oportuno dos bastidores da indústria, vale dizer), a admiração quase adolescente com direito a selfies estabanadas, as entrevistas desconfortáveis, a nova cor do cabelo, a língua estrangeira… Tudo que a envolve parece não estar batendo com o resto do filme, em uma dissonância proposital.

E nada disso é culpa da personagem. Na verdade, Trier jamais busca julgar suas criações, o que me lembrou seu filme anterior, a obra-prima A Pior Pessoa do Mundo (2021). Seu intuito é de investigação e compreensão. Se isso soa muito piegas, é porque de fato é uma tarefa ingrata em um mundo tão cínico com suas pseudo-certezas e inflexibilidade emocional. Esse é o ponto que o diretor coloca em crise com a produção do filme sobre Karin, especialmente em seu desfecho digno de toda sua ambição temática.

Valor Sentimental é um farol de humanidade e sensibilidade em um 2025 tão automático e mecanizado no cinema mainstream. Acolhedor, compreensivo e reflexivo, pode flertar muitas vezes com o drama familiar “oscarbait”, mas a condução de Trier faz toda a diferença para escapar desse rótulo. Um dos melhores do ano até aqui!