Uma das observações que mais gosto de fazer dentro de minhas pesquisas sobre o cinema através dos tempos é a popularidade de certos subgêneros, e como ela vai aumentando ou diminuindo conforme as tendências de determinados períodos. A comédia romântica (ou romcom) teve vários “booms”, seja no cinema clássico, com obras protagonizadas por Katharine Hepburn ou dirigidas por Frank Capra e Billy Wilder, ou a onda mais cínica e satírica do cinema moderno liderada por Woody Allen, até chegar ao besteirol e às linhas de produção dos anos 1990/2000 e puf!… desaparecer do mainstream.
Recentemente, a sede por novas romcoms tornou grande um filme extremamente despretensioso chamado Todos Menos Você (Gluck, 2023) que, na verdade, parecia servir como uma espécie de aviso: “Prestem atenção em Glen Powell!” Pois bem, chega Richard Linklater com mais uma ideia que nada tem a ver com o conjunto de sua variada filmografia: adaptar a história real de um professor universitário que atuava como falso assassino profissional, que servia de isca para a prisão de certos contratantes maliciosos e que acabou se apaixonando por um alvo, uma bela mulher aqui vivida por Adria Arjona. A quantidade de “que” nessa breve sinopse não é fruto de uma má escrita de minha parte, mas sim uma forma que encontrei de frisar o quão específica e absurda é essa história. E é com muita alegria que presencio ela se transformando em uma das melhores romcoms desse século!
Que Linklater é um ótimo diretor para tramas simples ou minimalistas, todos sabemos. Basta assistir à Trilogia Before ou a Boyhood (2014) e presenciar um realizador seguro de sua ideia naturalista para cada uma dessas obras. E parece que aqui ele funde essa segurança com um timing cômico tão bom ou melhor que em suas comédias anteriores, como Jovens, Loucos e Rebeldes (1993) e Escola de Rock (2003). A partir dessa história absurda, o diretor consegue dar uma identidade única ao humor de Assassino por Acaso; um humor que muitas vezes soa até mórbido demais se comparado ao tom cada vez mais erótico do romance que se desenrola, criando um contraste cada vez mais esquisito e, por isso mesmo, tão eficiente nesse tipo de narrativa.
O brilhantismo aqui está na manutenção de uma abordagem formal mais “convencional” das comédias contemporâneas aliada à constante subversão na condução de um thriller que lembra uma versão cômica de Pacto de Sangue (Wilder, 1944). É como se a vida dupla de seu protagonista se refletisse na própria construção de Linklater sobre essa trama.
E que excelente protagonista! Se Glen Powell já exibia carisma no filme supracitado de Will Gluck, aqui ele esbanja não só uma versatilidade exigida pelo personagem como também uma dinâmica impecável na transição de suas diferentes “personas”, especialmente entre Gary (o professor) e Ron (o assassino). Nesse ponto, a dinâmica que tem com Arjona – em uma personagem que sintetiza a loucura do projeto – é fundamental nessa condução de tons. Afinal, não lembro de uma femme fatale tão engraçada e inusitada quanto essa.
Assassino por Acaso é mais uma comprovação da versatilidade de Linklater com premissas absurdas sob uma condução aparentemente básica e um passo bem adiante na carreira de Glen Powell como um potencial aríete das comédias românticas contemporâneas. Resta esperar que as próximas sejam tão criativas quanto essa!