O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!!!
Ao receber o convite para a cabine de imprensa do novo filme do mexicano Michel Franco, minha curiosidade logo despertou. Nunca havia assistido a nenhuma obra de sua ainda curta filmografia, mas já tinha ouvido seu nome em outros carnavais… Ou melhor, festivais. Muitas controvérsias sobre alguns de seus filmes mais recentes acabaram me inspirando a dar essa chance para sua mais nova empreitada. Porém, ao sair da sessão, fui tomado por uma dúvida: por que tanto barulho por nada?
Claro que não podemos generalizar a obra de um cineasta por uma de suas obras potencialmente mais fracas, mas eu diria que Sonhos definitivamente não é aquele projeto que te inspira a mergulhar mais fundo na carreira de um artista. Afinal, temos aqui uma premissa muito promissora, sobre um casal formado por uma filantropa estadunidense e um imigrante mexicano ilegal que transformam sua relação carnal e até — por que não? — amorosa em uma espécie de jogo de obsessões com suas respectivas vantagens, seja a partir do poder financeiro, seja da própria força física. E, mesmo partindo dessa trama, com roteiro escrito pelo próprio, Franco jamais consegue dar vida às suas imagens, para o bem ou para o mal.
É um dos filmes que mais escancaram o que vem sendo um padrão nos festivais de cinema dos últimos anos ou até, quem sabe, da última década: uma superestimação do conteúdo em detrimento à forma como ele é transmitido em tela a partir da encenação. Se Sonhos busca, no papel, explorar as dinâmicas progressivamente mais tóxicas da relação entre a socialite Jennifer McCarthy (Jessica Chastain) e o bailarino Fernando (Isaac Hernández), a execução torna tudo raso e sem vida desde o início. A paixão sensual entre os dois em momento algum se expõe de tal forma, assim como suas ações destrutivas. A solução de Franco é, no máximo, um diálogo pornográfico imaturo, que poderia ter vindo de uma das inúmeras tentativas de humor fracassadas da série The Boys (2019-presente), ou uma cena de abuso sexual filmada exatamente da mesma forma apática que uma cena anterior de uma transa selvagem e eufórica entre os dois.
É até por isso que eu vou ser obrigado a fugir um pouquinho do filme neste texto para estimular uma reflexão sobre a linguagem, algo cada vez mais incomum na crítica cinematográfica mainstream. Se uma cena pretensamente erótica, em que o casal não se aguenta a ponto de consumar o ato no desconforto de uma escada, é filmada com a mesma negligência visual e semiótica de uma cena de estupro entre o mesmo casal sob um contexto completamente diferente movido pelas mudanças dramáticas do roteiro, o que o realizador está querendo nos transmitir? Eu tenho uma resposta que vem justamente daquele questionamento lá do primeiro parágrafo. Nada. Absolutamente nada!
Por isso, por mais que os eventos aqui retratados possam ser polêmicos, sua encenação jamais diz qualquer coisa para o público. Ou melhor, até diz. Na verdade, deixa evidente a preguiça artística de Franco em pensar seu próprio filme, em um ato aparentemente automatizado de posicionar a câmera em um espaço do set, mantê-la imóvel e deixar seus atores segurarem toda a barra que ele próprio deveria sustentar como autor.
Isso faz com que seu filme, para além de uma peça cinematográfica completamente insossa, ainda seja moralmente questionável ao parecer banalizar, sob a sua linguagem, não apenas o abuso sexual como também a própria xenofobia velada que vai sendo revelada a partir das ações da personagem de Chastain. A partir do tema da imigração ilegal, o diretor até consegue, aqui e ali, imprimir um mínimo impacto a partir do que propõe, formalmente falando. Um bom e raro exemplo está justamente nos primeiros minutos, em que vemos um caminhão lotado de imigrantes em condições insalubres após atravessar a fronteira, em uma composição visual que remete a um terror ou, esticando a sensibilidade, a um drama sobre tráfico humano. Porém, como já indiquei, isso deve acontecer em, aproximadamente, menos de 5% de toda a projeção.
Para ser honesto, eu não sei se essa esterilidade cinematográfica vem daquela preguiça que eu acabei de supracitar ou se vem de uma crença elitista, muito concentrada no cinema hollywoodiano e no cinema europeu mais mainstream, de que uma abordagem visual mais formalista ou até maneirista levaria o filme a um status menor artisticamente ou faria com que o público não levasse os acontecimentos tão a sério. E qualquer cinéfilo — nem precisa ser crítico, teórico ou acadêmico — poderia desmentir isso com pouquíssimos exemplos. O que seria do cinema de Paul Verhoeven ou Brian De Palma se não extrapolam as possibilidades da imagem para comentar sobre suas narrativas de desejos, paranoias e obsessões? O que seria do cinema noir se o contraste entre o preto e o branco não potencializasse todas as ambiguidades e dicotomias de suas narrativas? O que seria do slow cinema se não fosse a sensibilidade para esticar planos tão poderosos por longos minutos?
Franco então parece fazer um “anticinema”, um longa que parece comunicar apenas sua falta de sensibilidade como artista e autor, além de anunciar uma possível visão elitista e higienizada do cinema. É esse tipo de filme que tanto popula não apenas os festivais como também as grandes premiações. Obras antilinguagem, distanciadas, que tratam o roteiro como base fundamental que deve ser puramente ilustrada, não importa de que forma. Uma ironia um filme chamado Sonhos não se permitir nem sonhar com o paraíso carnal de uma relação erótica, nem ter pesadelos com a derrocada humana à obsessão e a sua própria autodestruição. A crise estética, mercadologicamente gerada, em sua forma mais pura.